CAPITULO 40
• LIVROS E DOUTRINAS –
O Alcorão (dodas revelações divinas recebidas por sura (capítulos), ordenadas por tamanho onipotência de Deus e a necessidade de relações entre as pessoas. Neles estão do judaísmo e do cristianismo, além de O Alcorão inclui muitas das histórias do árabe al-qur'ãn, leitura) é a coletânea Maomé de 610 a 632.
É dividido em 114
Seus principais ensinamentos são a bondade, generosidade e justiça nas incorporados elementos fundamentais antigas tradições religiosas árabes.
Antigo Testamento judaico e cristão, como a de Adão e Eva. Depois de desobedecer a Deus, Adão viajou e construiu a primeira Caaba. Após o dilúvio, Abraão, considerado o primeiro muçulmano, a reconstruiu.
Do Novo Testamento, o Alcorão registra passagens da vida de Jesus Cristo, reverenciado pelos muçulmanos como profeta que em sua religião só é sobrepujado em importância pelo próprio Maomé. Os muçulmanos acreditam na vida após a morte, na vinda do anti-Cristo e na volta de Jesus Cristo para vencê-lo, no Juízo Final e na ressurreição final de todos os mortos.
A segunda fonte de doutrina do Islã, a Suna, é um conjunto de preceitos baseados nos ahadith (ditos e feitos do profeta).
ALCORÃO
O Alcorão é um dos livros mais influentes da História.
Para 800 mil muçulmanos, espalhados em pelo menos 40 países do mundo ou um sexto da humanidade, ele é a Palavra textual de Deus.É um belo poema, uma oração e um código de leis que se sobressai por sua pureza de estilo, sabedoria e verdade, constituindo por essas características uma força indutora de comportamento religioso, social e político da humanidade.
Maomé, que nasceu em Meca, na Arábia, em 570 d.C. e faleceu aos 62 anos em Medina, foi o Porta-Voz de Deus à humanidade e seu livro, o Alcorão.Sobre ele, afirmou que "se um livro pudesse por as montanhas em marcha ou fazer a terra rachar ou os mortos falarem, esse livro seria o Alcorão." (13:13)
E sua função religiosa está bem delineada:
"Fizemos descer sobre ti o livro, com a verdade, para a instrução de to-dos os homens.
Quem seguir a senda da retidão, fá-lo-á em seu benefício e quem se desencaminhar fá-lo-á em seu prejuízo. Não és responsável por eles." — 39:41
As imagens e expressões que lhe caracterizam refletem o meio e a época em que o Alcorão foi revelado: um meio de desertos e oásis, de comércio rudimentar e de atividades agrícolas-pastorís. Maomé, o Profeta, transmite a mensagem em uma linguagem que eles entendam.
Prescrevendo ao homem uma vida de submissão à vontade divina, esta mensagem rapidamente espalhou-se pelo mundo: da Índia à Espanha e, durante a época áurea da civilização islâmica, muitas nações diferentes foram unidas em uma grande fraternidade.
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O Alcorão compreende 114 capítulos (Suras) revelados por Maomé, dos quais 86 em Meca e 28 em Medina; e compreende nada menos que 6236 versículos.
Cada capítulo é uma preleção, na qual os ouvintes são exortados a seguir determinadas normas morais ou a aplicar determinadas leis; ou mesmo a crer em determinadas verdades, extraindo conclusões dos fatos históricos que lhes são narrados.
Em síntese, o conteúdo do Alcorão representa um dogma, o da religião islâmica; uma lei, a lei corânica, que compreende os códigos penal, civil, constitucional e militar; normas para o comportamento individual e social; e narrativas históricas.
Dessas narrativas, muitas são referidas pelos textos bíblicos, como a criação de Adão e Eva e sua expulsão do Paraíso, a história de José e seus onze irmãos, a perseguição do Faraó aos judeus e seu êxodo para a Terra Prometida, a história de Salomão e da rainha de Sabá, o nascimento de Jesus Cristo e diversos outros, com grandes semelhanças em relação às versões da Bíblia.
Circunscrevê-lo, no entanto, apenas ao mundo muçulmano seria um erro, por sua amplitude e poderosa convocação para que o homem se enobreça com a comunhão da Palavra revelada.
O Alcorão apresenta Jesus Cristo como um profeta que anunciou a vinda de Maomé:
"Sim, o Messias, Jesus, filho de Maria, é o Profeta de Deus, sua Palavra, que ele lançou em Maria, um Espírito emanado dele." — 4:171
DIZ-NOS MAOMÉ
Se todas as árvores da terra fossem cálamos, e o mar, e mais sete mares fossem tinta, não esgotariam as palavras de Deus, o Poderoso, o Sábio. — 31:27
De vós deve surgir uma nação que pregue o bem, e recomende a probidade, e proíba o ilícito.
Esse é o caminho da vitória. — 3:104
Ó meu povo, sede justos na medida e no peso e em nada lesai os outros, e não corrompais a terra. — 11:85
Deus não muda o destino de um povo até que o povo mude o que tem na alma. — 13:11
Sabei que a vida terrena nada é senão um divertimento e um jogo, e adornos e fútil vanglória, e rivalidade entre vós à procura de mais riquezas e filhos.
Assemelha-se a vegetação que se segue a uma chuva. — 57:20
O ISLAMISMO
Os muçulmanos denominam a época anterior ao aparecimento de Maomé de período Jahiliya – “era da ignorância” (de Deus).
Nessa época, enquanto as estátuas e a arquitetura gregas eram glorificadas, os árabes se glorificaram na literatura e na expressão refinada.
Um adágio peninsular diz: “a beleza do homem reside na eloqüência de sua língua”.
O triunfo do Islamismo foi, até certo ponto, o triunfo de uma língua ou, mais precisamente, de um livro: o Alcorão. Não há no mundo povo algum, como o árabe, que tenha cultivado uma admiração tão entusiástica pela expressão literária e pela palavra, falada ou escrita.
Os árabes antigos não criaram nem desenvolveram qualquer grande arte como a oratória.
O profeta Maomé nasceu por volta do ano 571, na cidade de Meca, na Arábia Saudita.
Aos 25 anos de idade se casou com Khadija, viúva de um rico mercador com quem teve 4 filhos. Aos 40 anos, Maomé recebeu a revelação de Deus, que lhe foi trazida pelo Anjo Gabriel, e mais tarde transcrita no Alcorão, que significa “recitação”. Grande parte da força do Alcorão se consubstancia em suas rimas, em sua retórica, em sua cadência e em seu ritmo, que se perdem em suas traduções para outros idiomas.
Maomé conseguiu erigir uma organização social usando a religião como base, ao invés dos laços de sangue.Assim, o laço mais vital das relações árabes até então – o laço consangüíneo ou tribal – foi substituído por um novo, o da fé.O Alcorão contém, além das leis religiosas reguladoras do jejum, das esmolas e das preces, normas sociais e políticas relativas ao casamento e ao divórcio, ao tratamento dos escravos, prisioneiros de guerra e inimigos.
No Islã, existem 5 deveres ou pilares que o muçulmano deve respeitar: a profissão da fé,~´ a prece, as esmolas, o jejum e as peregrinações.
Os califas que vieram depois da morte de Maomé unificaram os povos da região ao redor do Alcorão e começaram a se espalhar até chegar à Espanha no Século XIII, e até o Afeganistão.
Os árabes não construíram apenas um império, mas criaram uma cultura. Herdeiros da civili
zação antiga que floresceu às margens dos Rios Tigre e Eufrates (no Iraque), das terras do Nilo –
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dos egípcios e dos faraós, e das praias orientais do Mediterrâneo, com os fenícios que também assimilaram e absorveram os traços principais da cultura greco-romana.
Assim, serviram como intermediários, transmitindo à Europa Medieval muitas das influências intelectuais que despertaram o mundo ocidental e lhe indicaram o caminho da renascença moderna. Quando o Islamismo surgiu, se propagou muito rápido, e em apenas dois séculos igualou o esplendor do seu cenário ao do Império Romano.
O deserto não é uma condição geográfica simples, e uma religião, para que triunfasse na Arábia, deveria estar de acordo com o espírito de aventura, a inclinação pela luta e o personalismo exagerado que estigmatizam o árabe, caracteres esses impostos pelo seu meio físico. O Alcorão, onde está contida toda a religião islâmica, é o reflexo das virtudes e dos vícios, paixões e sentimentos dos árabes, ou melhor, de seu fundador.
Maomé, como acentua Herder, representa bem a expressão árabe; o autor diz de Maomé: “uma mistura de tudo o que poderia produzir sua nação, sua tribo, seu país do seu tempo: mercador, profeta, orador, poeta, herói, legislador, sob cada forma, sempre fiel ao tipo árabe.” (Johann Gottfried Herder – “Idées sur la Philosophie de l’Humanité”).
Outras religiões tentaram penetrar na Arábia, como o Judaísmo e o Cristianismo, sem conseguir resultados. “A moral tão pura do Evangelho, fundada sobre a abstração, não podia satisfazer a um povo demais dócil à voz das paixões materiais”. A simplicidade em que aparece envolta a religião de Maomé é acessível à mentalidade de seu povo.A organização política da Arábia - inúmeras tribos nômades ou sedentárias - fez com que a finalidade do Islamismo fosse constituir um estado teocrático e militar, sendo seus membros soldados e sacerdotes, não existindo hierarquia religiosa.Quando Maomé surgiu, já havia a decadência das antigas crenças, como acontecera no Império Romano no tempo em que surgiu o Cristianismo. A Kaaba, verdadeira confederação religiosa onde havia ídolos de todas as tribos, facilitava a unidade religiosa, a adoração de um só Deus, porque todas as tribos, mesmo envoltas no paganismo, adoravam Allah, o Deus de Abraão, antepassado dos árabes, e foi Allah que Maomé reconheceu como o único deus.
O meio árabe já estava preparado quando Maomé surgiu, e ele participou apenas com seu talento e sua inteligência, adaptados às circunstâncias, no desenvolvimento do seu povo. Quando o profeta morreu, quase toda a Península Arábica estava unificada (ano 632).
Os árabes são portadores de uma cultura interessante, que é resultante da assimilação de elementos culturais dos povos vencidos ou com os quais mantinham relações, como os egípcios, os fenícios, os persas, os gregos, os hindus e até os chineses, povos esses detentores da herança cultural da Antigüidade. A influência árabe é muito grande na Europa.
Quando os árabes chegaram à Península Ibérica, influenciaram as letras, as artes, a filosofia e as ciências. As relações comerciais e os casamentos mistos promoveram o contato entre cristãos e muçulmanos. Os casamentos foram numerosos e os encontramos na própria aristocracia: governadores árabes se casaram com nobres cristãs, reis mouros se casaram com princesas espanholas e reis cristãos se casaram com filhas de emires árabes.
Grande era a influência da poesia árabe na poesia medieval provençal européia, não só na matéria e na forma poética, mas também no ritmo. Chamara essa poesia de “poesia andaluza” (Andaluz: como a Espanha era chamada pelos árabes). Guilherme Poitiers, o mais antigo trovador provençal, que viveu no Século XI, foi influenciado pelas “cacidas” árabes.
A Divina Comédia de Dante se inspirou no livro de um poeta místico Ibn Elarabi (p. 39).
Muitos livros exerceram grande influência na poesia e nas letras européias: o Alcorão, As Mil e Uma Noites, O Romance de Antar, Calila e Dimna, Ibn Khaldun e seu Livro dos Exemplos.
COMO FAZER UMA LEITURA ISLÂMICA DO QUE É CIVILIZAÇÃO E O QUE CARACTERIZA E DISTINGUE A CIVILIZAÇÃO ISLÂMICA
Por Kemel Ayoubi
SENTIR O ISLAMISMO
Antes de Maomé iniciar sua pregação, os povos Árabes (e nisto estão englobados não só os povos da península Arábica, mas também os Sírios e os Mesopotâmicos) estavam entregues a diversas religiões.
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Algumas nos são até hoje conhecidas, tais como o Zoroastrismo (ou Mazdaíso, do Império Persa), o Judaísmo e o próprio Cristianismo. Porém, além dessas religiões grandes; dentre as quais figurava também o Maniqueísmo; e bem difundidas, havia também os adeptos de diversas seitas, religiões e cultos de menor expressão, por toda a Arábia.
Uma característica comum a boa parte, senão a todos, desses cultos era o politeísmo.
Acompanhava essa tendência politeísta, um fenômeno (provavelmente influência dos Judeus radicados na região) de intenso "profetismo", ou seja, a cada dia surgiam mais e mais profetas que pregavam alguma nova doutrina, ou mesmo a vinda de um messias.
Como já fiz menção, os Coraixitas de Meca fizeram sua fortuna exatamente centralizando na Caaba as principais divindades de todas essas religiões.
Divindades essas que tiveram suas imagens destruídas, em 630, por Maomé. Convém, no entanto, que apresentemos algumas das principais divindades Árabes pré-Islâmicas para que, além de conhece-las, possamos perceber sua influência sobre Maomé, na criação da nova fé.
Os Beduínos cultuavam, principalmente, divindades animistas, ou seja, criam em elementos da natureza (tais como árvores, lagos...) como sendo divindades.
Sua crença é perfeitamente explicável pela própria forma de vida dos Beduínos, uma vez que, como eram nômades, um oásis podia representar para eles a diferença entre a vida e a morte, sendo assim, seus elementos eram sagrados.
Porém, além das divindades animistas (que fique claro que o termo animista é nitidamente pejorativo, no entanto, fiz uso dele devido à falta de um termo melhor), eram também cultuadas as deusas Al-lat, Al-Uzza e Manat, filhas de um deus mais importante, cujo nome referirei mais adiante. Em Palmyra e Petra, podia-se observar o culto de antigas divindades Fenícias, os Baal. A rigor, essa palavra quer dizer senhor, e na Fenícia, também designava aqueles que portavam altos cargos. Porém, existiam diversos Baal, dos quais, o mais célebre se tornou Baal-Zebbul, cuja corruptela do nome hoje nos dá o famoso Belzebu, ou seja, o Diabo.
A associação da figura do Diabo Judaico-Cristão, com essa antiga divindade, dá-se pelo costume que seus adoradores tinham em montar os chamados poços de sacrifícios, onde eram sangrados e depois arremessados toda a sorte de animais e, vez por outra, uma criança pequena.Nas outras regiões Árabes, eram adorados diversos deuses astrais, principalmente o Sol e a lua que, de forma antagônica ao culto que era feito na antiga Mesopotâmia (se bem que os nomes dessas divindades fossem praticamente os mesmos, o que caracteriza, necessariamente, uma influência daquele culto nos cultos Árabes), os sexos das divindades era oposto, ou seja, na Babilônia, o Sol era masculino e a Lua feminina, enquanto que na Arábia, ocorria o inverso.
Para os Babilônios, o planeta Vênus era feminino, enquanto para os Árabes, era masculino.
É curioso notar que, em boa parte desses cultos (mesmo, talvez no culto aos Baal, visto que este já não era mais o culto Fenício original, mas sim, havia se transformado ao longo do tempo) havia uma divindade comum que, em boa parte das vezes, se sobrepunha às demais.
Essa divindade era Allah (o pai das três deusas Beduínas).
Sendo assim, é perfeitamente explicável que Maomé, por influências Judaico-Cristãs, tenha aceitado o monoteísmo e, assim sendo, associou como figura divina, o nome do principal deus que conhecia, ou seja, Allah. Dessa forma, Allah não era para Maomé apenas mais um deus, mas sim, o Deus. Dado este primeiro passo, o profeta passou a assimilar a sua crença, diversos elementos Judaico-Cristãos, como a noção de inferno (a Gehenna dos Árabes), de paraíso e até mesmo a santidade de alguns homens, como Moisés, Abraão e o próprio Jesus.
É interessante que os Muçulmanos aceitaram facilmente a santidade de Jesus, aceitaram até mesmo o fato deste ter (supostamente) nascido de uma mulher virgem.
Porém, em nenhum momento consideraram-no como sendo o Cristo, ou seja, o ungido de Deus, o escolhido. Da mesma forma que não criam que Jesus fosse o escolhido, pois para os Muçulmanos, Maomé é o profeta definitivo, abominavam ainda mais a idéia da Santíssima Trindade, na qual Pai (Deus, que para os Judeus e Cristãos tem o nome de Jeová, ou mesmo Javeh), Filho (Jesus) e Espírito Santo estariam unidos numa única figura, ou seja, Jesus Cristo.
Para eles, a idéia da Santíssima Trindade constitui uma enorme heresia, pois gera a crença em outro ser supremo que não seja Allah e, sendo assim, o politeísmo.
Por todas as semelhanças entre o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, muitos Historiadores (especialistas em religiões) não consideram as três como religiões diferentes, mas sim, como ramos distintos da mesma fé.
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Se nos aprofundarmos um pouco no estudo das religiões, veremos que o Cristianismo surgiu do Judaísmo e este, por sua vez, teria tido, em suas raízes, profundas influências do Zoroastrismo (influências prováveis devido às semelhanças entre e ambas e devido ao fato da religião Persa ser mais antiga que a Judaica), datadas da época do Êxodo.
Devido a todas essas semelhanças, podemos dizer duas coisas:
1ª) De um ponto de vista racional, as três religiões;
Judaísmo, Cristianismo e Islamismo; seriam braços dissidentes de uma mesma religião inicial: a religião Persa (que não era o Zoroastrismo, mas que foi reformada por Zoroastro, por volta de 700 a.C.). Levando-se em conta o fato de que o surgimento das religiões, segundo estudos antropológicos comprovam, foi devido à observação dos fenômenos da natureza e, conseqüente tentativa de explicá-los. Pode-se concluir que, na verdade, nenhuma dessas religiões está correta, visto que todas as religiões que pressupõe uma divindade estão, necessariamente equivocadas, pois, à medida que a ciência caminha e que mais mistérios são desvendados, torna-se cada vez mais provável que um dia tudo poderá ser explicado cientificamente e, dessa maneira, não serão mais necessários deuses, pois todos eles estarão mortos.
Assassinados pela ciência.
Aliás, só para completar, talvez a própria cúpula das religiões já esteja convencida disso (e há muito tempo), pois isso explicaria claramente todos os entraves colocados, por exemplo, pela Igreja Católica, aos avanços da ciência (na Idade Média era pecado dizer que a Terra era redondo, hoje é pecado fazer clonagem humana).
Será que tudo isso não é apenas uma tentativa desesperada e inútil, por parte do clero, de manter as migalhas de poder que o mundo ainda lhe reserva?
Será que a clonagem humana não seria a prova do homem para ele mesmo de que não foi realmente Deus quem o criou, como dizem as religiões?
2ª) De um ponto de vista crédulo, podemos dizer que Maomé estava realmente certo, pois, se acreditarmos nas palavras de todos os profetas das grandes religiões ocidentais (excluindo assim as religiões do Extremo Oriente), o Judaísmo teria sido criado a partir de novos ensinamentos divinos, ensinamentos que, através dos Dez Mandamentos, reformulariam as crenças Persas (os Semitas, como queiram) pré-existentes.
Posteriormente, a vinda de Jesus Cristo e as conseqüentes lições de Amor que este deixou teriam reformado as crenças Judaicas e, por fim, as revelações de Deus a Maomé, teriam completado (pelo menos por enquanto) a linha de revelações divinas.
Sendo assim, o profeta fundador do Islamismo estaria certo em todas as suas afirmações e o Islamismo seria, necessariamente, a mais perfeita manifestação da vontade de Deus.
Para tornar a análise mais sucinta e específica, terminei aqui as digressões pessoais e me aterei apenas a enumerar os principais dogmas do Islamismo, além fazer algumas referências sobre passagens do Alcorão que retratam uma clara preocupação do profeta Maomé em unir o povo. Primeiramente, devo me remeter a explicar por o livro Alcorão tem este nome e também porque a religião se chama Islã, ou Islamismo.
Responderei, em primeiro lugar, a segunda questão.
Islã é uma palavra Árabe que significa rendição, sendo assim, é Islâmico todo aquele que se rende à palavra e à vontade de Allah. Islamismo é o emprego da palavra Islã, com a terminação ocidental "ismo", que se remete a designar algo semelhante à designação nipônica "do", ou seja, caminho, via; dessa forma, Islamismo é o caminho da rendição, caminho que todo o Muçulmano tem que percorrer corretamente para ser salvo por Allah e escapar da Gehenna (inferno), no final de sua vida.
Quanto à segunda questão, Alcorão vem do Árabe al Qur’ân, que quer dizer "A Leitura".
Esse nome remete-se ao sonho que Maomé teve com Allah, no qual o Deus lhe apresentou um pergaminho e ordenou: "Leia!", e o profeta leu mesmo sem saber ler.
Muitos lingüistas defendem que o livro deveria se chamar, em português, Corão, visto que a designação "al" quer dizer "o". Porém, outros refutam essa palavra com a seguinte afirmação.
Existe uma tendência na língua portuguesa em "importar" as palavras Árabes segundo o seu som e não segundo o seu significado, sendo assim, palavras como Alfândega, Algodão, Alquimia, Almíscar, Álgebra, Alferes, Alambique, Alcaide e até mesmo Arroz e Açúcar; não foram traduzidas segundo seu significado, caso contrário, seriam algo como a Fândega, o Godão, a Quimia, o Míscar, a Gebra, o Feres, o Lambique, o Caide, o Roz e o Sucar.
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Como a tendência que defende a forma Alcorão tem mais respaldo teórico (como os exemplos mostraram), é mais comumente encontrada a forma Alcorão, sendo que a forma Corão, apesar de não usual, não está errada. A vida e os costumes Árabes passaram, desde Maomé, a serem ditados pelo Alcorão. Porém, o próprio Maomé dizia que: "É uma blasfêmia atribuir este Alcorão a outro, que não Deus. Ele é a confirmação do que o procedeu e a elucidação do Livro incontestável do Senhor dos mundos".
Segundo o Alcorão, todos os Muçulmanos têm cinco obrigações básicas:
1 – orar diariamente com a cabeça voltada para Meca
2 – doar esmolas aos pobres;
3 – jejuar no mês do Ramadã (mês lunar, do calendário Árabe, sagrado);
4 – peregrinar a Meca pelo menos uma vez na vida (dessa obrigação estão livres aqueles que dispuserem de recursos;
5 – difundir a fé (essa obrigação deu origem à Jihad, ou Guerra Santa, pois se tratava da guerra, com a bênção divina, contra aquele que não aceitassem a fé Islâmica).
Dentro dessas cinco obrigações, pode-se constatar pelo menos duas que foram incluídas pelo profeta: jejuar no Ramadã e difundir a fé. A primeira é explicada devido ao fato deste mês ser o mês das secas e, conseqüentemente, da fome, dessa forma, se o Muçulmano estiver jejuando, ele não acreditará que está passando fome por condições que lhe são inatingíveis, mas sim por vontade própria. Já a difusão da fé é uma preocupação do profeta para que, com sua morte, a religião não se estagnasse. As outras três podem ser divididas da seguinte maneira: duas de caráter religioso real e uma de caráter altruístico.
O caráter religioso é demonstrado na peregrinação à Meca e na oração diária.
Já o caráter altruístico (de ajuda ao próximo, também pode ser dito, caráter humanitário) pode ser visto na obrigação de doar esmolas aos pobres. Além dessas obrigações, as principais, diversas outras obrigações menores compõem a complexa e rígida moral Islâmica.
São obrigações nitidamente colocadas no livro por alguém (talvez Maomé, talvez Uthman, quando publicou o texto único do livro, exterminando as diversas versões concorrentes) que intentava regular a vida da população de uma forma indiscutível, ou seja, legitimando suas ordens como sendo vontade de Deus. Dessas obrigações constam coisas como não comer carne de porco (algo que faz muito mal à saúde de quem vive em regiões áridas), ser asseado (para evitar doenças), além de punições divinas (respaldadas pelo Alcorão) a crimes humanos, como o roubo, o adultério, o assassinato...
Todas essas punições, sempre podem ser evitadas, bastando que o criminoso se arrependa diante de Allah. O Muçulmano deve ser piedoso.
A compilação das Sunnas (tradições) Árabes, no Alcorão, por Maomé, serviu para dar aos povos Árabes um caráter unitário e, dessa forma, por fim às dissensões internas.
Depois da morte de Maomé, as Sunnas do Alcorão (referidas nele próprio como Sunnas de Allah), passaram cada vez mais a ser conhecidas como Sunnas de Maomé, ou Sunna de Maomé.No entanto, esse conjunto de tradições se mostrou incompleto com o passar do tempo e, sobretudo, à medida que os Árabes se expandiam e assim, entravam em contato com povos não Árabes. Justamente devido a essas lacunas do Alcorão, criou-se no mundo Islâmico a tradição dos Hadith, ou seja, homens que ditavam a maneira mais adequada de se agir frente às situações sobre as quais o Alcorão nada mencionava. Esses Hadith eram verdadeiros Oralistas e, sendo assim, estudavam o Alcorão a fundo e, baseados nesses estudos e nas tradições orais passadas ao longo do tempo, davam seu parecer sobre como agir.
8.1 – UM IMPÉRIO DE FÉ
Talvez este seja o item mais importante do trabalho, isto porque é nele que pretendo expor meu pensamento sobre o Islamismo. É simples, o Império Islâmico se iniciou com um objetivo missionário pregado por Maomé.Em suas raízes (ainda na época de Maomé e depois, sob Abu Bakr), ele uniu povos cujos interesses e cultura eram semelhantes, sendo assim, cuja união seria facilmente conquistada apesar do histórico de independência dos povos Árabes.
No entanto, a medida em que a expansão do Império foi caminhando, especialmente sob Uthman, os povos abraçados por ele já não tinham mais os mesmos interesses dos Árabes do Hedjaz, de Hadramaut, do Iêmen, da Síria e do Iraque (regiões que primeiro foram conquistadas e, sobre as quais me referi no início do trabalho como sendo habitadas por povos Árabes), eram povos que já haviam estado sob a égide de outros Impérios e Reinos e que, por isso, se habituaram com certa facilidade a integrar o Império que surgia.
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É notório que os Omíadas desempenharam um papel fundamental no Império,aliás, não só para o Império, mas para o Islamismo em si. Hoje, as regiões onde o Islamismo é professado como religião oficial correspondem exatamente às regiões ocupadas pelos Omíadas e, em alguns casos, ao seu prolongamento natural, como é o caso de regiões distantes da Ásia. É claro que não podemos deixar de levar em consideração a importante presença do Império Otomano (também chamdo de Império Turco) que, durante séculos, dominou vastas regiões a leste da Europa. Porém, exceto na Espanha, onde os Reinos Cristãos foram vitoriosos e impuseram pela força das armas a eliminação do Islamismo, nas outras regiões Omíadas, esta ainda é a religião dominante.
Não é a toa que o Islamismo conta hoje com mais de um bilhão de fiéis sendo, individualmente, a maior religião do planeta (o Cristianismo tem mais adeptos do que o Islamismo, porém, estes estão divididos entre o Catolicismo, a Igreja Cristã Ortodoxa, o Espiritismo e as seitas ditas Evangélicas ou Protestantes). O forte trabalho missionário dos conquistadores Islâmicos se fez possível porque juntamente com a religião (que juntamente com o Cristianismo é a maior religião missionária do mundo), os conquistadores levavam sua língua, que se tornou a oficial e obrigatória em todo o Império, e sua tolerância aos cultos locais.
A mesma coisa não acontecia com os povos Cristãos que se expandiam, pois estes impunham sua fé de maneira compulsória aos povos dominados (quem nunca ouviu falar no massacre da Saxônia, operado por Carlos Magno, onde o Rei matou todos os Saxões que se recusaram a se converter ao Cristianismo?
E olhem que Carlos Magno, juntamente com Luís IX, o São Luís, são considerados os dois maiores Reis Cristãos da Idade Média).
Diga-se de passagem, a tolerância foi um dos principais trunfos dos Muçulmanos e, talvez, o que tenha tornado possível sua conquista, pois estes obrigavam os não Muçulmanos a pagar pesados impostos, mas não os matavam, como faziam os Cristãos.
É curioso notar que os Islâmicos demonstravam maior intolerância contra os Muçulmanos não Sunitas (Kharidjitas, Xiitas e seguidores de outras seitas) do que contra os não Islâmicos, estes, só estavam obrigados à tributação, não eram considerados traidores, uma vez que nunca haviam jurado fidelidade aos dogmas de Maomé.
A tolerância proporcionava uma fácil aceitação do domínio Islâmico por parte das populações que possuíam recursos para pagar os tributos que lhes seriam cobrados (foi o caso dos Judeus das cidades Espanholas que, por serem perseguidos pelos Visigodos Cristãos, demonstraram grande receptividade aos Muçulmanos, vistos como salvadores).
Fundamentalmente, o Império Islâmico não foi o Império de um povo, mas sim de uma religião e é apenas por isso que, até hoje, os povos Islâmicos possuem uma certa noção de interesses comuns, uma vez que, são ligados por uma mesma religião, religião esta que os incumbe de propagar sua fé a todo custo, sendo assim, em algumas ocasiões podemos ver povos de países diferentes se unirem em torno de um objetivo comum, ligado à religião, como nas vezes em que, no século XX, uma Liga dos Povos Árabes foi reunida para combater Israel (um país Judeu incrustado no meio do Oriente Médio).
• PRECEITOS RELIGIOSOS –
A vida religiosa do muçulmano tem práticas definidas pela Sharia, o caminho que o muçulmano deve seguir na vida. A Sharia define normas de conduta, comportamento e alimentação, além dos chamados pilares da religião.
O primeiro pilar é a shahada ou profissão de fé: Não há outro Deus a não ser Alá, e Maomé é seu profeta. Esse testemunho é a chave da entrada do fiel para o Islamismo.
O segundo pilar são as cinco orações diárias comunitárias (slãts), durante as quais o fiel deve ficar ajoelhado e curvado em direção a Meca.
Às sextas-feiras realiza-se um sermão de um verso do Alcorão, de conteúdo moral, social ou político.
O terceiro pilar é uma taxa chamada zakat.
Único tributo permanente ditado pelo Alcorão, é pago anualmente em grãos, gado ou dinheiro.
É empregado no auxilio aos pobres e no resgate de muçulmanos presos em guerras.
O quinto pilar é o hajj ou a peregrinação a Meca, que precisa ser feita pelo menos uma vez na vida por todo muçulmano que tenha condições físicas e econômicas para realizá-la.
A esse cinco pilares, a seita khawarij adicionou o jihad. Traduzido comumente como Guerra Santa, significa a batalha para reformar o mundo, um dos objetivos do Islamismo.
É permitido o uso dos exércitos nacionais como meio de difundir os princípios do islã.
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Segundo a doutrina muçulmana, as guerras, porém, não podem visar à expansão territorial nem a conversão forçada de pessoas. Por isso, o jihad não é aceito por toda a comunidade islâmica.
FESTAS E LUGARES SAGRADOS –
As principais comemorações são Eid el Fitr, Eid el Adha, Dia de Hégira (Ano-Novo) e a comemoração do nascimento de Maomé.
Elas acontecem nessa ordem no decorrer do ano e são definidas segundo o calendário lunar, por isso têm datas móveis em relação ao calendário solar. Na Eid el Fitr é comemorado, com orações coletivas, o fim do Ramadã.
Durante todo o mês lunar de cada ano, guarda-se o Ramadã, e, do amanhecer ao pôr-do-sol, o muçulmano celebra a revelação do Alcorão a Maomé e comemora sua primeira vitória militar contra Meca.Enquanto é dia, os fieis não podem comer, beber, fumar ou manter relações sexuais, embora trabalhem normalmente. Mas as restrições não são mantidas durante as noites, e as ruas se enchem de pessoas que comemoram alegremente a revelação feita a seu profeta. A celebração do Eid el Adha lembra a disposição de Abraão em sacrificar a Alá seu próprio filho, Ismael (na tradição judaico-cristã o filho seria Isaque).
Na época de Eid el Adha também acontece a peregrinação a Meca.
O Ano-Novo islâmico é comemorado no Dia de Hégira, o 1º do mês Muharram.
O marco é o ano de 622, quando Maomé deixa Meca.
Os lugares mais sagrados do Islamismo são Meca, cidade onde fica a Caaba, Medina, lugar onde Maomé construiu a primeira Mesquita (templo), e Jerusalem, cidade onde o profeta ascendeu aos céus durante uma viagem noturna em que foi ao paraíso e se encontrou com Moisés e Jesus Cristo.
DIVISÕES DO ISLAMISMO –
Os muçulmanos se dividem em dois grandes grupos principais, os sunitas (dapalvra suna, o caminho) e os xiitas.
Os sunitas subdividem-se em quatro grupos principais, cada um deles com uma escola de interpretação da Sharia:
hanafitas,
malequitas,
chafeitas
e hambanitas.
São os seguidores da tradição do Profeta, continuada por All-Abbas, seu tio.
Calcula-se que 84% dos muçulmanos sejam sunitas.
Para eles, a autoridade espiritual pertence à comunidade.
Os xiitas (16% dos muçulmanos)também possuem sua própria interpretação da Sharia.
Seu nome deriva da expressão "shi at Ali", partido de Ali, que foi marido de Fátima, filha de Maomé. Seus descendentes teriam a chave para interpretar os ensinamentos do Islã. A rivalidade entre sunitas e xiitas é exacerbada com a revolução no Irã, liderada pelo Aiatolá Khomeini, de linha xiita.
Uma corrente das mais antigas, a sufista, surge no século IX e é a mais mística do Islamismo.
Os sufistas enfatizam a relação pessoal com Deus e praticam rituais que incluem danças e exercícios de respiração para atingir um estado místico.
São membros praticantes do sufismo os faquires da Índia e outras regiões da Ásia, e os dervixes, da Turquia. Historicamente, o Islamismo tem sido marcado pelo surgimento de movimentos, grupos e correntes de maior ou menor envolvimento político, de linhas fundamentalistas (conservadora) ou moderna.
• CALENDÁRIO ISLÂMICO (HÉGIRA)
• Por Waleed Muhanna
• 1. História e Motivação
O calendário islâmico, que se baseia no ciclo lunar, foi introduzido pela primeira vez no ano 638 d.C pelo companheiro próximo do Profeta e segundo califa, 'Umar ibn al-Khattab (592-644 d.C). Ele tomou essa decisão, numa tentativa de racionalizar os vários sistemas de datas usados naquela época. 'Umar consultou seus conselheiros sobre a data de início da nova cronologia muçulmana e finalmente foi acordado que o acontecimento de referência mais adequado para o calendário islâmico era a Hégira.
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Para a data do início verdadeiro do calendário foi escolhido (com base no ano lunar, contando-se para trás) o primeiro dia do primeiro mês (1° de Muharram) do ano da Hégira.
O calendário islâmico (Hégira) (com datas que caem dentro da era muçulmana) é normalmente abreviado pela letra H., tirado das línguas ocidentais derivadas do latim, Anno Hegirae.
Portanto, 1° Muharram, do ano 1, corresponde ao dia 16 de julho do ano de 622 da era cristã.
A Hégira, que narra a migração do Profeta Mohammad (saw) de Meca para Medina, em setembro de 622 d.C., é o acontecimento histórico central dos primórdios do Islam e que teve como consequência o estabelecimento da primeira cidade-estado muçulmana, um ponto decisivo na história mundial e islâmica.
Para os muçulmanos o calendário com base na Hégira não é só um sistema afetivo de contagem de tempo e de datas de acontecimentos religiosos importantes (por exemplo, o jejum e a peregrinação a Meca). Tem uma importância histórica e religiosa muito mais profunda.
• Mohammad Ilyes (Ilyes 84) menciona Nadvi, que escreveu:
"(O advento do século 15) é, na verdade, uma ocasião ímpar para se meditar que a Era Islâmica não teve início com base em vitórias das guerras islâmicas, nem com o nascimento ou a morte do Profeta (saw), ou com a própria Revelação.
Ela começa com a Hégira, ou o sacrifício pela causa da Verdade e pela preservação da Revelação. Foi uma escolha inspirada divinamente. Deus quis ensinar ao homem que a luta entre a Verdade e o Mal é eterna. O ano islâmico lembra aos muçulmanos, anualmente, não as honrarias ou as glórias do Islam e sim o seu sacrifício, preparando-os para fazer o mesmo."
• De um ponto de vista histórico, Ilyes cita Samiullah que escreve:
"Todos os eventos da história islâmica, principalmente aqueles que aconteceram durante a vida do Santo Profeta e posteriores, são mencionados com base no calendário da Hégira.
Mas nossos cálculos no calendário gregoriano nos afasta daqueles acontecimentos que estavam repletos de lições educativas e instruções orientadoras.... E este estudo cronológico só é possível com a adoção do calendário com base na Hégira para indicar o ano e o mês lunar de acordo com nossas mais estimadas tradições."
2. Especificação e Método
O ano islâmico (Hégira) consiste de 12 meses (lunares). São eles:
• (1) MuHarram
• (2) Safar
• (3) Raby` al-awal
• (4) Raby` al-THaany
• (5) Jumaada al-awal
• (6) Jumaada al-THaany
• (7) Rajab
• (8) SHa`baan
• (9) RamaDHaan
• (10) SHawwal
• (11) Thw al-Qi`dah
• (12) Thw al-Hijjah
As datas mais importantes do ano islâmico (Hégira) são:
1° de Muharram (ano novo islâmico);
27 de Rajab (Isra e Miraj);
1° de Ramadhan (primeiro dia do jejum);
17 de Ramadhan (Nuzul al-Qur'an); os últimos dez dias do mês de Ramadhan, que inclui o Laylatu al-Qadar;
1° de Shawwal (Eid ul-Fitr);
8-10 deTw al-Hijjah (a peregrinação a Meca);
e 10 de Tw al-Hijjah (Eid al-Adha).
É considerado um mandamento divino usar o calendário (Hégira) com os 12 meses lunares sem intercalação (Ilyes 84), conforme se depreende dos versículos alcorânicos a seguir:
"Perguntar-te-ão sobre os novilúnios. Dize-lhes: Servem para auxiliar o homem no cômputo do tempo e no conhecimento da época da peregrinação." (Alcorão 2:189)
"Para Deus, o número dos meses é de doze, como reza o Livro Divino, desde o dia em que
Ele criou os céus e a terra. Quatro deles são sagrados; tal é o cômputo exato.
Durante estes meses não vos condeneis, e combatei unanimemente os idólatras." (Alcorão 9:36)
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"A transposição do mês sagrado é um excesso de incredulidade, com que são desviados,ainda mais,. os incrédulos; permitem-no num ano e o proíbem noutro, para fazerem concordar o número de meses feitos sagrados por Deus, de maneira a tornarem lícito o que Deus vedou.
Suas más ações os iludiram. Sabei que Deus não guia os incrédulos." (Alcorão 9:37)
Considerando que o calendário islâmico é lunar, quando comparado com o ano solar ou luni-solar, ele é mais curto do que o ano gregoriano em cerca de 11 dias e os meses do ano islâmico não têm qualquer ligação com as estações, que estão relacionadas com o ciclo solar.
Por isto, as festividades muçulmanas que sempre caem no mesmo mês do ano com base na Hégira podem ocorrer no verão ou no inverno. Somente após 33 anos do ciclo é que os meses lunares completam uma volta e caem na mesma estação.
Por razões religiosas, o início de um mês no calendário da Hégira não é marcado pelo começo de uma nova lunação e sim pela visão da lua crescente em um dado local.
Do ponto de vista do Fiqhi, uma pessoa pode começar o jejum do Ramadan, por exemplo, baseado na visão "local" (ikhtilaf al-matale') ou na visão da lua em qualquer lugar do mundo muçulmano (ittehad al-matale'). Embora diferentes, tanto uma como outra são posições Fiqhi válidas . Astronomicamente, alguns dados são definitivos e conclusivos (isto é, o tempo do nascimento de uma lua nova). No entanto, determinar a VISIBILIDADE do crescente não é definitivo ou conclusivo;depende de uma série de fatores, principalmente de natureza ótica.
Daí a dificuldade em se confeccionar calendários islâmicos que sejam confiáveis (no sentido de que eles sejam consistentes com a visibilidade real do crescente).
Esforços para se obter um critério astronômico de se predizer o momento da primeira visibilidade lunar remontam ao período babilônico, com importantes melhorias e estudos feitos mais tarde por muçulmanos e outros cientistas. Estes esforços resultaram no desenvolvimento de vários critérios de se predizer a primeira visão possível de um crescente.
No entanto, ainda permanece uma medida de incerteza. Além do mais, houve muito pouco trabalho no sentido de se estimar a visibilidade do crescente em escala global.
Enquanto isto durar, não existe qualquer programa de calendário da Hégira que seja 100% confiável e a visão real do crescente permanece fundamental, principalmente para fixar datas importantes como o início do Ramadan e dos dois eids.
As ligeiras diferenças nos calendários islâmicos impressos no mundo, portanto podem apresentar dois aspectos: (1) a ausência de um critério global para a primeira visibilidade; e (2) o uso de diferentes critérios de visibilidade (ou método de cálculo).
As condições metereológicas e as diferenças na localização do observador também explicam porque algumas vezes existem diferenças na observância das datas islâmicas no mundo.
Aqueles que quiserem informações adicionais sobre o assunto devem consultar o excelente livro de Mohammad Ilyas, "A Modern Guide to Astronomical Calculations of Islamic Calendar, Times & Qibla", Berita Publishing, 1984, (ISBN: 967-969-009-1).
O livro contém uma discussão cuidadosa do sistema islâmico de calendário e fatos históricos e científicos relacionados.
Também apresenta uma proposta válida para um Calendário Islâmico universal, baseado no critério de visibilidade global e no conceito de um Dia Lunar.
• O QUE É UMA MESQUITA?
• Pedro da Rocha
O mundo está vivendo momentos difíceis entre o Oriente muçulmano e Ocidente cristão.
Enquanto do lado islâmico se fala em guerra santa contra o grande Satã (o Ocidente e os Estados Unidos em particular) dando a impressão que esta seria uma guerra de religião, o Ocidente quer distinguir a guerra contra o terrorismo – embora de matriz islâmica – da religião muçulmana. Fica difícil, porém, para o povo aceitar esses atos de terror e a guerra como atos comandados por Deus, quando sabemos que Ele é o mesmo e único Deus para cristãos e muçulmanos
.O fanatismo religioso é um absurdo em religiões que pregam a paz e harmonia com Deus e, por conseguinte, com os homens, mas, na vida diária, a prática da religião mistura-se com a cultura de cada povo e essa cultura é formada de múltiplos fatores como nacionalismo, história, situações sociais, etc.Aqui, queremos mostrar, baseado num estudo de Kalil Samil, jesuíta árabe, como funciona a mesquita e o que representa para os muçulmanos essa construção, às vezes muito rica, às vezes simples, mas de importância fundamental para as comunidades
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islâmicas.Geralmente, estamos acostumados a ver na mesquita uma igreja muçulmana como uma igreja católica, edifício dedicado somente ao culto de Alá.
Mas a mesquita é uma construção mais complexa no conjunto do islã.
Na tradição árabe, existem dois termos para indicar a mesquita:
masgid que em espanhol foi traduzido mezquita e entrou em todas as línguas européias e giâmi’ que é a denominação mais difundida no mundo árabe. O primeiro nome deriva da raiz sgd cujo significado é “ prostrar-se” e o segundo da raiz “gm” que significa “ reunir-se”.
A mesquita (giâmi) é o lugar onde a comunidade muçulmana se reúne para tratar de todas as questões que lhe interessa, questões religiosas, sociais, políticas e locais e também para rezar; portanto, a mesquita tradicional é composta de dois espaços; aquele para rezar, masgid, e outro para tratar dos problemas da comunidade.
A sexta-feira é o dia em que a comunidade islâmica se reúne, na mesquita, ao meio-dia, para a oração pública e, em seguida, realiza-se o khutbah, isto é, o discurso que não é um simples sermão religioso.Nesse discurso, aprofundam-se as questões sociais, políticas, morais e tudo o que interessa à comu-nidade islâmica.
A sexta-feira, portanto, mais que um dia de descanso, como é o sábado dos judeus ou o domingo dos cristãos, é o dia da comunidade islâmica que se reúne como comunidade.
Dependendo do país onde os islâmicos se encontram, a sexta-feira pode ser até um dia de trabalho, mas todos fecham seus negócios pelo menos na hora do khutbah.
DICIONÁRIO ISLÂMICO•
Aiatolá: membro mais alto na hierarquia xiita do clero muçulmano
Califa ou vigário do Profeta: chefe político e religioso da comunidade islâmica sunita
Emir: título leigo do chefe militar ou civil, como governador e general islâmicos
Imã: guia político-religioso das comunidades muçulmanas
• Jihâd: guerra no caminho de Alá.
Tradicionalmente entendida como guerra santa contra os infiéis
• Muezim: religioso que do alto dos minaretes clama os fiéis para a oração cinco vezes ao dia.
Sunnah: tradição baseada nos exemplos da vida de Maomé
É uma complementação do Alcorão e fonte do Direito muçulmano.
Os seguidores são chamados sunitas e, no universo islâmico, têm uma prática mais tolerante
Ulema: doutor ou teólogo do islã
• Xá: soberano e chefe político entre os árabes
• Xeque: chefe de tribos árabes ou título honorífico dos membros das famílias reais
•Xiismo: corrente teológica islâmica radical. É seguida por 10% dos muçulmanosNa história muçulmana, quase todas as revoluções, os levantes populares começaram após esses discursos na mesquita.
A Jihâd que, normalmente é traduzida como “guerra santa contra os infiéis”, num sentido mais literal, significa “guerra no caminho de Alá”, e obriga todo islâmico a defender sua comunidade e o que ficou decidido e proclamado no khutbah.Por causa desses possíveis envolvimentos políticos, nos países onde o governo não é muçulmano ou, embora muçulmano, não é fundamentalista, agentes especiais são enviados para observar e vigiar, nessa hora, as mais importantes mesquitas do país.
Em outros lugares, onde a ligação do governo com islã é mais estrita, o testo do khutbah deve ser apresentado às autoridades civis, antes de ser lido e ter a sua aprovação.
Nas mesquitas financiadas pela Arábia Saudita (que são maioria nos países europeus), os imãs ou chefes das mesmas são impostos pela monarquia saudita, razão pela qual ela tem total controle sobre essas mesquitas.Uma vez inaugurada, a mesquita torna-se um espaço sagrado que supera o fato de ser simplesmente um lugar religioso porque, sendo sagrado, deve ser respeitado e venerado e, portanto, somente a comunidade decide quem pode ser admitido dentro desse espaço e quem não pode, porque sua presença o profanaria.
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Espalhados nas cidades grandes e pequenas onde há muçulmanos, existem outros lugares pequenos para oração, que podem conter umas cinqüenta pessoas.
Eles podem ser quartos ou salões no térreo de um edifício, lugares mais discretos que servem especialmente para a oração do meio-dia, em lugar das estradas e calçadas.
Alto-falantes versus minaretesAs mesquitas possuem, geralmente, uma torre ou minarete, cuja altura superior às casas que a rodeiam tem a função prática de fazer chegar mais facilmente aos fiéis a voz do muezim que os chama para as cinco orações diárias.
Às vezes, numa ou outra oportunidade, os minaretes assumiram também uma função simbólico-política, como a de afirmação da superioridade do islã sobre as outras religiões
.Com o avanço da técnica, ultimamente, estão sendo usados alto-falantes, ainda mais quando a mesquita se encontra no meio de bairros não muçulmanos e os muezins aproveitam desse instrumento para alongar suas orações.
Essas inovações são contrárias à tradição muçulmana ou sunnah e os países islâmicos mais rigorosos condenam a prática.
No Egito, o uso dos alto-falantes está limitado a dois minutos e proibido na primeira oração do dia.
Uma pergunta legítima é como as mesquitas se sustentam.
Elas, geralmente, se financiam com as esmolas dos fiéis, enquanto as mesquitas do mundo ocidental são financiadas, em sua maioria, pela Arábia Saudita que adquire assim o direito de impor-lhes os seus imãs e a sua ideologia.
A Arábia Saudita segue a linha xiita do islã, ou seja, a linha mais radical, chamada wahhabita.
PEREGRINOS VIAJAM A MECA
A cada ano cerca de 2 milhões de muçulmanos vão para Meca - o lugar mais sagrado do Islamismo - para participar do ritual que combina crença e paixão durante cinco dias, o Hajj.
Muitos muçulmanos poupam dinheiro durante anos para conseguir fazer a peregrinação.
Eles, geralmente, viajam milhares de quilômetros.
Ao chegar no local, eles enfrentam uma vasta multidão e o forte calor do deserto.
ANFITRIÃO
Para o país anfitrião, a Arábia Saudita, o evento tem uma importância especial.
As autoridades sauditas estão cientes da sua responsabilidade como guardiãs dos lugares sagrados do Islamismo.
• Mas o grande número de peregrinos representa um sério problema.
Em anos recentes, centenas de pessoas morreram como resultado de manifestações, fogos, tumulto ou apenas insolação e exaustão. As autoridades sauditas implementaram um sistema de quotas para tentar diminuir o número de peregrinos.
Elas também tentaram, sem sucesso, manter os políticos afastados do Hajj.
Em 1987, centenas de peregrinos foram mortos em confrontos entre as forças de segurança da Arábia Saudita e manifestantes liderados por iranianos.
• Passo a passo
Para acompanhar os rituais, o peregrino precisa entrar no estado de Ihram ¿ um estado especial de pureza.
Ele o faz por meio de uma declaração de intenção de realizar o Hajj, vestindo roupas brancas especiais (que também são chamadas de Ihram) e obedecendo certas regras.
Durante o Hajj, os peregrinos são proibidos de:
• manter relações sexuais
• fazer a barba e cortas as unhas
• usar perfume ou óleos perfumados
• matar ou caçar qualquer coisa
• lutar ou discutir
• mulheres não podem cobrir os seus rostos, mesmo que tenham que fazê-lo nos seus países de origem
• homens não podem vestir roupas com costura
Ao chegar em Meca, o peregrino entra na Grande Mesquita e circunda sete vezes, no sentido anti-horário, o Kaaba (uma construção em formato de cubo localizada no meio da mesquita). Esse ritual é conhecido como Tawaf.
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O peregrino também corre sete vezes uma passagem da Grande Mesquita, comemorando a busca por água feita por Hajar, esposa do profeta Abraão.
Dia 1 Peregrinos viajam para Mina em 8 Dhul Hijjah (uma data no calendário islâmico) e permanecem lá até o amanhecer do outro dia.
Dia 2 Peregrinos viajam para o vale do Arafat e ficam de pé ao ar livre rezando por Alá e meditando.
No final do dia, peregrinos viajam para Muzdalifa, onde eles passam a noite. Eles coletam pedras para o próximo dia.
Dia 3 De manhã, os peregrinos retornam para Mina e jogam sete pedras em pilares chamados de Jamaraat, que representam o demónio Os pilares estão em três locais onde se acredita, pela religião muçulmana, que o Satã aliciou o profeta Abraão.
Os peregrinos sacrificam animais, geralmente ovelhas ou cabras.
Isso celebra o incidente relacionado ao Velho Testamento em que o profeta Abraão estava prestes a sacrificar seu filho e Deus aceitou, ao invés dele, uma ovelha.
Hoje em dia, muitos peregrinos pagam alguém para sacrificar o animal por eles.
Nesse dia, os peregrinos também raspam suas cabeças ou cortam parte do cabelo, retornando à Grande Mesquita, em Meca, para mais um ritual de Tawaf. Eles voltam para Mina, onde passam a noite.
Dias 4 e 5 Peregrinos ficam em Mina, atirando pedras contra os pilares. Se um peregrino não conseguir voltar a Meca para circundar o Kaaba, ele ou ela o fazem durante o quarto ou quinto dia do Hajj.
A CALIGRAFIA
Na origem, a Caligrafia Ára-be define-se por um dinamismo grafofônico, na medida em que é escrita para ser ouvida no silêncio da fé que leva ao Is-lam.
E é poesia para ser vista, contemplada, pela harmoniosa concepção do signo como unidade estética. Capaz de abarcar pelo conteúdo e pela forma a mensagem enviada por Deus, encontra na mesquita seu lugar natural.
"A mesquita –
não há altares, não há imagens, mas há letras árabes em toda parte.
Esses sinais, curiosamente revoltos e cursivos aparecem pintados e esculpidos nas paredes, tecidos nos tapetes e nos medalhões que pendem do teto.
A letra árabe é a razão de ser da mesquita. Por ser uma casa da escrita, é a mesquita uma casa de Deus. A mesquita é uma casa de leitura, porque leitura é prece".
Expandindo ao fiel o caminho da ascese, a caligrafia da Palavra convoca-o pela fé, pela razão e pela emoção, permitin-do-lhe o encantamento e quiçá, o encalço paroxístico do Absoluto.
Exercendo as funções iconográfica e ornamental, a Ca-ligrafia busca - pelo ritmo e pela cadência; pelo sentido e pela forma hierática - conferir ao ambiente sagrado do muçulmano, uma dimensão imponente de inteligência e beleza, adequada ao encontro com Deus.
Ritmo e cadência provêm da repetição das letras, das pa-lavras, das frases; da repetição que é o arabesco, muitas vezes associado à escrita.
Pertinente, aqui, a palavra de Jamil A. Haddad que nos recorda "o dhikr, a repetição ininterrupta pelos tempos infi-nitos do nome de Allah em que o crente se anestesia apenas com a repetição do nome de Deus que leva ao êxtase, o que, em definição rápida, é o contacto direto, imediato com Deus, dispensando intermediários". Ao contrário da arte ocidental, fundada na poli-ideali-zação, a arte árabe revela-se essencialista, expressando-se por uma forma decorativa não-figurativa, alicerçada fortemente na caligrafia do pensamento alcorânico.
A Civilização Árabe, tendo se constituído e desenvol-vido sob a proteção do Islão, foi uma das maiores civilizações da escrita que o mundo conheceu. Na verdade, a palavra con-tida no Alcorão, escrita, ouvida e recitada - o Alcorão é não só a Leitura, mas também o Dhikr por excelência - é para o ára-be, fundamento de vida.
O Alcorão, palavra incriada e eterna de Deus, texto maior do muçulmano, é considerado, assim, o Signo-fonte que manterá com todas as outras escrituras determinadas pela cul-tura que embasa, um elo orgânico.
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A escrita - e sobretudo a caligrafia árabe - é considerada uma das formas mais proemi-nentes de inserção do Signo na realidade e na memória dos ho-mens, pois fixa a língua que se tornou o veículo da Revelação.
Se o pensamento alcorânico é total e sua língua, perfeita, é porque se trata do Verbo do Altíssimo que desceu à terra. Verbo que se fez escrita. Escrita que se materializou na Cali-grafia.
Caligrafia que representa o corpo visível da divina pala-vra.
Para o muçulmano, o nome sagrado de Deus e o Alcorão equivalem à Encarnação para o cristão: o mesmo senso de de-voção que o cristão nutre por Jesus (Verbo Encarnado) é o que o muçulmano nutre pela escrita da palavra divina e pelo Alco-rão que a acolhe.
Das artes visuais do Islão, é a Caligrafia a mais nobre. E a de fundamento e concepção mais peculiares. Está longe de ser uma arte em substituição à imagem, esta, mal vista por um Islão em que o combate ao politeísmo e ao totemismo é um ponto fulcral de doutrina.
A Caligrafia é antes uma arte em que a letra - o signo - se faz imagem.
Construída sobre o credo monoteísta que impede a pes-quisa e experimentação de vários modelos, a arte muçulmana levou a extremos a reserva quanto à imagem, quase negando a arte figurativa, ao menos vendo-a com precaução e desprezo, o que, de certa maneira, já estava prescrito nas grandes religiões monoteístas anteriores.
Para o cristão, há sensivelmente uma gradação na con-ceituação da imagem: não se deve adorar, mas reverenciar a imagem da Virgem, de Jesus e dos Santos.
Para o cristão o-riental, as regras de preservação da sacralidade são mais rígi-das e o temor da idolatria, ainda maior, o que exclui a tridi-mensionalidade da imagem talhada, a estátua esculpida, admi-tindo-se apenas os ícones, estes, sim, podendo ser respeitados, por serem apenas imagens pintadas em superfícies planas.
E, para o protestante, o aniconismo é marcante em todas os mo-mentos do exercício da fé.
O iconoclasmo muçulmano aproxima-se do bizantino, participando também da resistência do protestantismo à repro-dução e, em certo sentido, é o herdeiro do lastro iconoclasta dos antigos semitas. Se nos reportarmos ao texto alcorânico, porém, veremos que nele não há interdição clara da imagem ou da arte em ge-ral. É evidente, entretanto, a condenação na direção da idola-tria, uma vez que "será proscrito todo objeto de arte que se torne cultuado".
Tal condenação explicita-se de modo definitivo quando é execrada a prática idólatra do período pré-islâmico, con-substanciada aqui, particularmente, na adoração das estatuetas Al-lât, Al-Ozza e Manat. Já nos hadiths, verifica-se que em suas declarações, está contida a hostilidade à arte em geral e, de modo especial, à figurativa.
Verifica-se, ainda, que a condenação surge com maior veemência contra o artista do que contra sua obra, con-forme um de seus mais reconhecidos aforismos: "Os artistas que fazem imagem, serão punidos no Dia do Juízo por um julgamento de Deus que lhes determinará a impossível tarefa de ressuscitar suas obras". Outra razão implícita da condenação do artista e da ima-gem que produz, escuda-se no fato de que a mensagem teoló-gica central do Alcorão consiste em afirmar a unicidade e o to-tal poder de Deus.
A relação dos Atributos de Deus (Asma ‘Allah al Husna) mostra que um de Seus qualificativos é Al-Mussawwir (o criador de formas), o mesmo termo utilizado para pintor.
A partir daí, todo artista seria um rival de Deus no exercício de Suas atribuições principais.
Ainda com relação à imagem, se tomarmos como referência a arte hindu e a chinesa por um lado e a cristã por outro, configurando, portanto, um paralelismo Oriente/Ociden-te, veremos que a arte islâmica delas diverge não tanto em princípios fundamentais, como em interpretação literal.
Como vimos, o espírito da interdição islâmica em face da represen-tação de formas é que, teoricamente, no Dia do Juízo, as ima-gens deverão ser ressuscitadas por seu autor. No que concerne ao conceito hindu, "o elemento formal na Arte representa uma atividade puramente mental", não cabendo a preocupação em dotá-lo de vida.
Por outro lado, a imagem, o ícone cristão não são movi-dos por nada que não seja apenas sua forma: "cada um, no seu sentido estrito, é visto como uma espécie de diagrama, expres-sando certas idéias e não como semelhança (likeness) de algo na terra".
O muçulmano vê a representação como blasfêmia, pois só Deus tem o poder criador da vida.
Na visão asiática e na cristã, a arte figurativa representa um modo de falar de Deus e da Natureza e não de imitá-los: a natureza e a arte são pare-cidas somente em idéia; do contrário, são irreconciliáveis.
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•
A amplitude da questão da imagem convocou figuras eminentes do mundo islâmico através dos tempos. Dentre elas, a de Algazali, em sua obra Ihya’ Ulum Al-Din (Vivificação das Ciências da Religião) em que, ao enumerar o cortejo de ví-cios que acompanha os banhos bizantinos, situa, em primeiro lugar, "os afrescos representando seres humanos e animais", não tolerando senão "os que representam árvores, isto é, seres inanimados".
Na verdade, seres inanimados, figuração de animais e até de seres humanos acabarão por integrar o universo árabe-islâmico, a partir já de meados do século VIII.
Algumas considerações impõem-se aqui, que permitam esclarecer o aparente paradoxo.
A reflexão sobre Arte (como, de resto, sobre qualquer segmento da Cultura Árabe) deve tomar em conta o conjunto de fatores e relações estabelecidos a partir do encontro dos muçulmanos com outros povos, no formidável processo de ex-pansão que o Islão conheceu.
Tendo início em 622, a formação da almejada "nação árabe" (‘umma) adquiriu seus contornos maiores com a chegada dos muçulmanos à Península Ibérica em 711.
O processo de implantação da língua árabe e da religião islâmica (implicando naturalmente o enraizamento cultural árabe) gerou uma realidade bastante complexa, determinada basicamente pela união de várias etnias, culturas e filosofias, sob a égide do Islão.
Na verdade, o grau de islamização de ca-da região, país ou grupo social foi extremamente diversificado, não só porque o momento histórico em que ocorreu era outro, mas - e sobretudo - em virtude do maior ou menor arraiga-mento das populações conquistadas a seus valores originais; populações detentoras, muitas vezes, de ricos patrimônios ar-tísticos e tradições plásticas. Para exemplo, tomemos a Pérsia, à época da arabização, região das mais florescentes sob todos os aspectos, que manteve com a incorporação dos valores ára-bes e islâmicos, muita autonomia na condução de seu desen-volvimento cultural.
Pelas mesmas razões, foi análogo o caso da antiga Síria, acrescendo-se o fato de que parte de sua popu-lação resistiu à islamização, chegando a preservar um impor-tante núcleo cristão no Oriente Médio e grande liberdade na determinação de seu perfil cultural.
A Civilização Árabe não uniformizou totalmente os po-vos convertidos.
A tolerância dos conquistadores (registrada pelos historiadores mais divergentes entre si) permitiu o exer-cício dos diversos particularismos dos conquistados, ao mês
mos tempo em que os engajou na perspectiva universalista do projeto da Nação Árabe.
Abalançando-se entre o geral e o particular, o comum e o específico, os árabes nunca perderam de vista o objetivo maior, a consolidação da entidade unitária representada pela ‘Umma. À medida que o Islão se expandia;que, cada vez mais, se distanciava do ambiete idólatra que o antecedera; que se intensificava o contacto com a arte dos conquistados, foi se alterando a ordem inicial do iconoclasmo e do aniconismo muçulmanos. Nesse sentido, são acentuadas as influências bi-zantina e sassânida. Sob a dinastia dos omíadas (660 a 750), com capital em Damasco, na Síria, o desenvolvimento artístico árabe efetuou-se muito próximo do mundo helenístico e da cultura bizantina. Surgiram, entre os árabes, nessa época, as primeiras reprodu-ções de realidades inanimadas como árvores, flores, conjuntos arquitetônicos...
Além do mais, artistas bizantinos foram solicitados - em virtude do brilho e da superioridade técnica, digamos assim, que os muçulmanos também lhes conferiam - a colaborar na construção e decoração das grandes mesquitas omíadas do Oriente.
O período subseqüente (750 - 1258) tem início com a to-mada do poder pelos abássidas, que transferiram a capital do Império para Bagdad, de domínio persa.
Foi, sem dúvida, o período que aglutinou um maior número de convertidos não-á-rabes e foi, justamente por isso, o período que mais propiciou a incorporação de valores específicos dos grupos assimilados. No século IX, entretanto, surge em Samarra o arabesco, um ti-po de ornamentação especificamente islâmica, cuja dinâmica é dada por um ritmo contínuo.
Está presente circundando frases, marcando início de capítulos (sobretudo do Alcorão). "Dia-lética do ornamento", para usar a expressão de Burckhardt, o arabesco apresenta em sua estrutura, variações infinitas deter-minadas principalmente pelo entrelaçamento de planos e linhas que redundam em motivos geométricos e motivos florais e vegetais.
De policromia suntuosa, transpõe os mesmos moti-vos a todos os materiais, mas encontra no livro, lugar de desta-que.
Os tons de ouro e prata parecem acentuar o lado espiri-tual, sagrado.
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Em combinação com as demais cores (verde, azul, amarelo, vermelho...) chegam a provocar a ilusão de um vitral iluminado... Quando utilizadas as cores complementares do arco-íris, elas o são sempre na tonalidade original.
Lentamente, tomou lugar a representação de seres vivos: animais, de início, e mais tarde, esparsamente, a figura huma-na, localizando-se a primeira, ainda em meados do século VIII, nas paredes do Qusayr Amrah, edificação das estepes desérticas da Transjordânia.
Merecem citação também, as pinturas de Samarra no Iraque e o manuscrito ilustrado do Kitab al-Aghâni de Abu al-Faraj al-Ispahâni, entre outros exemplos conhecidos.
Por volta do século XIII, fruto de diversos aportes e da devida assimilação dos mesmos, os árabes muçulmanos che-gam a uma manifestação artística bastante autêntica, propondo um estilo próprio que se concretiza na chamada "Arte do Livro".
Esta compreende a Iluminura, processo consagrado pela ornamentação das páginas e das capas do Alcorão, sobre-tudo frontispícios e posfácios com elementos sem figuração al-guma, bastante complexos pelo ritmo e pelo nível de entrelaça-mento de motivos.
São freqüentes as rosáceas, separando ver-sículos e os inícios de capítulo assinalados por enquadramento decorativo. Há o uso abusivo da douração, o que acentua o caráter sagrado do texto alcorânico e torna a página mais lumi-nosa; daí o termo que a caracteriza - iluminura.
A Arte do Li-vro compreende também a ilustração de manuscritos, através da Miniatura de imagens. A miniatura será a mais notável arte figurativa árabe.
De acentuada influência persa, seu apogeu coincide com o apogeu da Civilização Árabe e seu declínio acompanha a trajetória dos árabes, a partir da chegada dos mongóis a seus domínios (1.258). As obras mais representativas desta arte são dois exemplares das Maqâmât de Al-Hariri. O primeiro data de 1.225 - 1.235 e o segundo, de 1.237. Atribui-se o primeiro a um desconhecido; o segundo consagrou definitivamente Al-Wasiti, calígrafo e pintor que o copiou e ilustrou.
A fascinação destas pinturas (mais freqüente entre os shiitas que entre os sunitas), reside no poder de evocar - deta-lhando-os - aspectos contemporâneos da vida árabe, seja um povoado, uma caravana, uma procissão de peregrinos, uma barcaça no Eufrates, ou um navio no Golfo Pérsico... Portanto, além da beleza plástica, encerram um valor adicional: têm um caráter documental do modus vivendi da época, realmente importante.
Ao analisar as múltiplas influências culturais incidentes particularmente na Arte Árabe, verifica-se que a supremacia persa é incontestável. Entretanto, é de suma relevância a influência generalizada pelo Império Árabe (seja no Oriente, seja no Ocidente), de uma visão cristã marcada pela icono-grafia de povos evangelizados. Muito embora tenha se realizado de alguma maneira, a conquista da arte figurativa e seu conseqüente desenvolvimen-to até o presente, entre os árabes muçulmanos, nunca teve um percurso tranqüilo, ainda que se verificasse sempre no âmbito profano. Suscitou sempre acirradas polêmicas e acaloradas discussões acerca de interpretações dogmáticas. Houve, evi-dentemente, níveis diferentes de aceitação e de restrição à ima-gem ao longo do tempo: a região da Pérsia, por exemplo, mos-trou-se mais liberal que as regiões de substrato semítico; hou-ve uma atitude marcadamente moralizadora nos primeiros tempos do Islão, com vistas a extirpar de seu universo, a idola-tria, contrastando com a abertura maior do século XII.
E - reto-mando Grabar - "a heterodoxia shiita mostrou-se mais permis-siva que a ortodoxia sunita". Contudo, pairou sempre sobre a mão do artista - ainda que de modo não canonicamente ex-plícito - certo desprezo pela imagem.
Uma análise porém, ainda que superficial do âmbito da Arte, dá-nos a certeza de que há uma unanimidade, uma hori-zontalidade que atravessa a globalidade árabe: a importância do signo, da escrita como o veículo máximo da simbologia islâmica.
Como corpo da Revelação, a Caligrafia (khat) é a pró-pria identidade do Islão, exercendo-se como elo entre a Natu-reza e o Alcorão - os dois livros de Deus - ao plasmar os si-nais divinos em seu duplo sentido: sendo abstrata é, em certa medida, figurativa, visto ser a própria encarnação do Verbo; sendo visível presença da divina palavra, remete ao Invisível (Ghayb).
sábado, 7 de novembro de 2009
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