domingo, 8 de novembro de 2009

CAPITULO 12 = ESCRITA ; LITERATURA ; CIENCIAS ; ARQUITECTURA

CAPITULO 12
ESCRITA, LITERATURA, CIÊNCIAS E ARQUITETURA

A escrita hieroglífica, inventada em fins do período pré-dinástico e aperfeiçoada sob as primeiras dinastias, foi utilizada até o fim da Antiguidade.
Consistia numa combinação
de ideogramas (sinais que representam ideias)
e fonogramas (sinais que representam sons).
Deu origem a duas outras escritas mais simplificadas e mais próprias a serem grafadas no papiro:
o hierático
e o demótico.
A escrita hieroglífica foi decifrada pelo francês Champollion, em 1822.
Os textos egípcios que se conservaram são predominantes religiosos e funerários - textos das pirâmides, textos dos sarcófagos, Livro dos Mortos (colectânea de ensinamentos de como proceder na vida de além-túmulo e durante o julgamento de Osíris), hinos a diversas divindades,
Inscrições que se referem aos mitos e rituais divinos, além de romances, poesias líricas, sátiras, tratados técnicos, etc. A ciência egípcia consistia em conhecimentos práticos diversos como receitas de medicamentos, fórmulas geométricas e trigonométricas para a agrimensura ou para a construção.
Pag 128

A numeração era decimal, mas não usavam o zero; conheciam a soma e a subtracção.
O calendário, ao mesmo tempo solar e lunar, estabeleceu-se cedo, através da observação da coincidência eventual do aparecimento conjunto do sol e da estrela Sírius.
Os médicos egípcios eram famosos na Antiguidade e a prática da mumificação levou a uma acumulação de conhecimentos sobre anatomia. Não obstante, a medicina, a astronomia e os outros ramos da ciência estavam profundamente penetrados de magia e de religião.
A arte egípcia preocupou-se em expressar a riqueza e o poder dos governantes, destacando-se a arquitectura monumental, a decoração de templos e túmulos com relevos, pinturas e estátuas, a confecção de vasos de pedra e a ourivesaria.
A arquitectura era sólida, de proporções colossais, tentando expressar toda a força e poder da monarquia. Os exemplos mais conhecidos são as pirâmides (características do Antigo Império), destacando-se as dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos;
a Esfinge, gigantesca estátua com corpo de leão e cabeça humana, cuja construção é atribuída a Quéfren; os templos de Luxor e de Carnac, erguidos no Novo Império.
Além das pirâmides, a arquitectura funerária criou outros tipos de túmulos: as mastabas, de forma trapezoidal e os hipogeus, tumbas subterrâneas cavadas nas montanhas.
A LITERATURA EGÍPCIA
A decifração dos hieróglifos não somente colocou ao alcance do mundo científico a história do Egipto como também revelou uma literatura até então desconhecida.
A tradução de milhares de inscrições trouxe à luz textos poéticos da mais alta qualidade e também histórias que ainda hoje prendem a atenção dos leitores, não só pela originalidade dos temas como pela inteligência em sua concepção.
Visão dos escribas sobre seu trabalho
Os egípcios letrados, pertencentes à classe social dos escribas, tinham a respeito das letras e da literatura uma visão "moderna", segundo podemos entender, pois acreditavam que, por meio delas, o homem alcançava a imortalidade. Essa ideia é até hoje aceita como verdadeira.
Por meio das actividades literárias, entendemos que os grandes escritores deixam o nome como uma herança a ser conhecida, partilhada e utilizada por toda a humanidade.
As primeiras manifestações literárias egípcias surgiram sob influência da religião.
Os textos mais antigos foram encontrados inscritos no interior das pirâmides e datam da época da quinta dinastia. Os textos das pirâmides, elaborados no Antigo Império, são considerados os mais antigos escritos do mundo. Seu entendimento não é fácil; destinavam-se a uso litúrgico e constituem-se de fórmulas mágicas, religiosas e também de orações.
No Médio Império, extensas inscrições eram transcritas directamente nos ataúdes onde as múmias eram encerradas. Os temas chamados textos dos sarcófagos são equivalentes aos das pirâmides, constituindo-se de fórmulas para o defunto alcançar a imortalidade.
Com as mesmas finalidades, surgiam - no período do Novo Império - os chamados livros dos mortos, que apresentam semelhanças com os textos dos sarcófagos.
ANTIGOS DOCUMENTOS
Colocados junto às múmias, escritos em papiros, os livros dos mortos incluem fórmulas religiosas que deveriam ser lidas diante do tribunal de Osíris.
Geralmente, esses antigos documentos incluem uma "confissão negativa".
Livros dos Mortos
"Não causei sofrimento aos homens.
Não usei de violência para com minha parentela.
Não substituí a injustiça na justiça.
Não frequentei os maus.
Não cometi crimes.
Não permiti que trabalhassem para mim em excesso.
Não fomentei intrigas por ambição.
Não maltratei meus servidores.
Não blasfemei contra os deuses.
Não privei o indigente de sua subsistência.
Não cometi actos detestados pelos deuses"...
"Não levantei a mão sobre o homem de humilde condição.
Não fiz chorar.
Pag 129

Não fiz ninguém sofrer.
Não tirei o leite da boca das criaturas".
.. (Jean-Marc Brissaud: François Daumas).
Desde a época do Antigo Império, várias modalidades de obras literárias surgiram no Egipto: poesias, ensinamentos morais e políticos, biografias, contos e outras.
O AMOR NA POESIA EGÍPCIA
A poesia egípcia incluía trechos delicados de carácter lírico:
Há sete dias que não vejo a minha bem-amada.
• O desalento se abateu sobre mim.
• Meu coração tornou-se pesado.
• Esqueci até minha vida.
• Quando os médicos vêm à minha casa,
• Seus remédios não me satisfazem...
• Ninguém descobre minha doença.
• Mas se me dizem: "Olha, ei-la",
• Isso me restitui a vida. (Jean-Marc Brissaud)
O Hino ao Sol, escrito pelo faraó Aquenaton (Amenófis IV, que tentou implantar o monoteísmo no Egipto), é considerado por muitos a obra poética mais importante deixada pelos egípcios.
Mesmo depois de traduções sucessivas, que sem dúvida devem ter tirado muito de sua qualidade, essa obra de 33 séculos de existência mantém ainda sua beleza.
Hino ao Sol
Apareces cheio de beleza no horizonte celeste, disco vivo que deste início à vida.
E ao te levantares no horizonte oriental, abranges todos os lugares com tua perfeição...
.No momento em que desapareces no horizonte ocidental, queda-se o universo submerso nas trevas como morto...
...Porém, quando chega a aurora, no momento em que despontas no horizonte, e fulguras, disco solar, ao longo da jornada, dispersas as trevas e emites teus raios...
Então as Duas Terras ficam em festa, a humanidade desperta e se levanta.
. Os olhos contemplam sem cessar tua perfeição, até teu ocaso; cessam todos os trabalhos quando te pões no ocidente.
Entretanto, quando te levantas novamente, tudo floresce para o rei que nasceu de teu corpo.
• O rei do Alto e do Baixo Egipto...
• O senhor das duas Terras... filho de Rá... senhor das duas coroas, Aquenaton.
• Que seja grande a duração de sua vida!
• E também para a esposa que ele ama, a senhora das Duas Terras... Nefertiti, que lhe seja permitido viver em juventude para sempre, eternamente! (François Daumas)
Outro tipo de obra que, desde o Antigo Império, marcou a literatura egípcia foram os ensinamentos: textos escritos, às vezes, por faraós que procuravam, por esse meio, preparar adequadamente os filhos para exercer o poder.
Exemplo desses ensinamentos são os escritos pelo faraó Actoés II para seu filho Mericaré.
Essa obra possui um sentido ao mesmo tempo moral e político, recomendando ao futuro faraó o respeito para com os súbditos e a energia no exercício do poder.
Ensinamentos para Mericaré
A língua é a espada do rei.
A palavra é mais poderosa que qualquer outra arma.
.. um povo rico não se levanta para rebelar-se.
Não o empobreças, de maneira que não se veja levado à rebelião, pois é o povo pobre aquele que fomenta o distúrbio.
...Não faças diferença entre o filho de um homem de qualidade e o de um homem comum... (François Daumas)
A história de Sinueh,
A viagem de Unamon,
A história dos dois irmãos,
A história do camponês falador são obras egípcias que lembram os contos e romances de nossa época.

PAG 130

Elas incluem aventura, amor, tragédia, enfim os ingredientes principais que caracterizam as obras literárias de qualidade. Permitem, além disso, que os homens do século XX tomem conhecimento mais exacto de uma realidade que emerge das profundezas insondáveis dos milénios que os separam da civilização do Egipto Antigo.
ARTE
A principal arte desenvolvida no Egipto Antigo foi a arquitectura.
Marcada pela religiosidade, a arquitectura voltou-se para a construção de belos e grandes templos, como os templos de Karnac, Luxor e Abu-Simbel, e de gigantescas pirâmides como as de Quéops, Quéfren e Miquerinos.
A escultura atingiu o auge com a construção de monumentos de grandes estátuas de faraós.
A escrita egípcia, conhecida como hieroglífica, foi criada no período pré-clássico e era monopólio e privilégio dos sacerdotes e dos escribas.
Ao longo do tempo, surgiram no Egipto dois outros tipos de escrita: a escrita hierática e a demótica. A hierática foi uma simplificação da hieroglífica, mas seu uso ligava-se ainda a religião e ao poder, e a demótica era a escrita popu
CIÊNCIA
No campo das ciências os egípcios desenvolveram principalmente a aritmética, a astronomia e a medicina. A ciência procurava resolver problemas práticos, como controle das inundações, construção do sistema hidráulico, preparação da terra, combate as doenças etc.
Preocupados com os fenómenos da natureza, os egípcios ao desenvolver a astronomia, criaram um calendário baseado no movimento do sol.
Por esse calendário, o ano era dividido em 12 meses de 30 dias e mais 5 dias de festas, que eram adicionados no final para completar os 365 dias anuais.
• MAAT – A PALAVRA DA VERDADE
A verdade não é uma invenção moderna.
Tal como a conhecemos, ela existe onde há consciência; uma está envolvida na outra.
As de onde vem a verdade, a rectidão e a justiça, e o que podemos chamar de código de ética?
Parece que nossa civilização e nossa cultura têm uma dívida para com o Egipto Antigo.
De todas as culturas ou países conhecidos, o Egipto tem os mais antigos registros históricos, remontando a mais de cinco mil anos. Em egípcio, a palavra para verdade é Maat.
O uso do Maat surgiu na Era das Pirâmides, iniciada por volta de 2700 a. C. No começo, Maat estava associado ao deus-sol Ra, ao faraó, à administração do país, ao homem comum, aos rituais dos templos e aos costumes mortuários.
Além disso, Maat eventualmente passou a ser associado a Osíris, o deus do outro mundo.
Para os egípcios antigos, a palavra Maat significava não só verdade mas também rectidão e justiça.Seu símbolo do Maat era a pluma de avestruz.
A pluma, como símbolo, é encontrada em toda parte do Egipto. Nos túmulos e nas paredes e colunas dos templos. A pluma pretende transmitir a ideia de que "a verdade existirá".
A pluma era transportada nas cerimónias egípcias, muitas vezes sobre um cajado.
Ela aparece como fazendo parte do toucado da deusa.
A deusa alada Maat. Pintura mural que fica na entrada do túmulo da rainha Nefertari, esposa do faraó Ramsés II.Para os egípcios que viviam na Era das Pirâmides, discernia-se o Maat como algo praticado pelo indivíduo. Era também uma realidade social e governamental existente, bem como uma ordem moral identificada com o governo do faraó.
Durante toda a história do Egipto Antigo, o Maat foi o que o faraó personificou e aplicou.
Maat era a concepção egípcia de justiça; era justiça como a ordem divina da sociedade.
Era também a ordem divina da natureza conforme estabelecida no momento da criação.
O conceito tanto fazia parte da cosmologia quanto da ética.
Nos textos das pirâmides do Antigo Reino, está dito que Ra surgiu no local da criação: "...
Depois ele pôs ordem, Maat, no lugar do caos... sua majestade expulsou a desordem, a falsidade, das duas terras para que a ordem e a verdade fossem ali novamente estabelecidas".
A verdade e a ordem foram colocadas no lugar da desordem e da falsidade pelo criador.
O faraó, sucessor do criador, repetia este ato importante na sua subida ao trono, quando das suas vitórias, ao terminar a renovação de um templo e em conexão com outros acontecimentos importantes.
Um dos textos das pirâmides diz: "O céu está satisfeito e a terra regozija-se quando ouvem que o Rei Pépi II pôs Maat no lugar da falsidade e da desordem".
PAG 131

Os historiadores modernos concluem que a justiça era a essência do governo, inseparável do rei e, portanto, o objectivo reconhecido da preocupação de um funcionário.
Ele não só estava envolvido na concepção de justiça como também na ética. Dizia-se que os inúmeros deuses dos egípcios viviam pelo Maat. Isto quer dizer que os poderes encontrados na natureza funcionavam de acordo com a ordem da criação.
Para o povo, o faraó estava com os deuses em sua relação com Maat, como se evidencia por esta citação: "Tornei clara a verdade, Maat, que Ra ama.
Sei que ele vive de acordo com ela.
Ela também é meu alimento.
Eu também como do seu brilho". Assim, o rei ou faraó vivia pelo Maat.
Esperava-se que os funcionários dirigidos pelo faraó vivessem de acordo com o Maat, conforme o sugere esta citação: "Se és líder e diriges os assuntos de uma multidão, esforça-te por alcançar toda virtude até que não haja mais falhas em tua natureza.
Maat é bom e sua obra é duradoura. Ele não foi perturbado desde o dia do seu criador.
Aquele que transgride seus decretos é punido.
Ele se estende como um caminho à frente até mesmo daquele que nada sabe.
A má ação até hoje nunca levou seu empreendimento a termo".
O significado aqui é evidente. Ele pede honestidade. Honestidade era sempre o tema.
• Os funcionários do faraó devem esforçar-se por alcançar toda virtude, e sempre imparciais, verdadeiros e justos em seu trabalho.
Era crença egípcia que a ordem divina foi estabelecida na criação e que esta não só se manifestava na natureza, mas também na sociedade como justiça, e na vida da pessoa como verdade. Maat era esta ordem, a essência da virtude.
O conceito de Maat confirma a antiga crença egípcia de que o universo é imutável, e que todos os opostos aparentes devem manter-se mutuamente num estado de equilíbrio.
Ele subentende vigorosamente uma permanência; estimula o homem a esforçar-se por alcançar a virtude até que não tenha mais falhas. A harmonia e a ordem estabelecida de Maat, assim como a permanência, estão subentendidas nisso.Um homem só teria êxito na vida, se vivesse harmoniosamente de acordo com o conceito de Maat e em sintonia com a sociedade e a natureza.
A rectidão produzia alegria; o contrário trazia o infortúnio. Este era um conceito profundo para os egípcios antigos, um conceito que ultrapassava o âmbito da ética, poderíamos dizer, e que na verdade afretava a existência do homem e seu relacionamento com a sociedade e a natureza.
É claro que havia aqueles, entre os antigos egípcios, que não desejavam seguir os preceitos de Maat. O Maat predominava por toda a terra.
O camponês insistia que mesmo o mais pobre tinha direitos inerentes.
Achava-se que o deus criador fizera todo homem igual ao seu irmão; a existência era curta para quem praticava a inverdade, a falsidade e a desordem, os opostos de Maat. Isto tornava impossível a vida.
A eficiência de Maat não podia estar presente quando a pessoa praticava a desonestidade.
Todos os deuses do panteão egípcio agiam de acordo com a ordem estabelecida de Maat.
O egípcio acreditava que o Maat da ordem divina seria o mediador entre ele e os deuses.
De acordo com essa crença, quando um homem errava não cometia crime contra um deus, mas atingia directamente a ordem estabelecida.
Um ou outro deus providenciaria para que a ordem fosse vingada.
Nas pinturas que se vêem nas paredes dos templos e dos túmulos o faraó aparece exibindo Maat aos outros deuses diariamente. Assim, o faraó estava cumprindo sua função divina de acordo com a ordem de Maat em nome dos deuses.
Vemos aqui também a inferência de permanência, que Maat era eterno e inalterável.
Este era a verdade .Uma verdade que não era susceptível de verificação ou comprovação.
A verdade sempre estava em seu lugar certo na ordem criada e mantida pelos deuses.
Era um direito criado e herdado que a tradição dos egípcios antigos transformou num conceito de estabilidade organizada. A lei da terra era a palavra do faraó, pronunciada por ele de acordo com o conceito de Maat. Como o próprio faraó era um deus, ele era o intérprete terreno de Maat.
Em consequência, também estava sujeito ao controle de Maat dentro dos limites da sua consciência. Se qualquer egípcio quisesse experimentar a felicidade eterna, esperava-se que fosse moralmente circunspecto. O carácter pessoal era mais importante que a riqueza material. Segundo a crença do Antigo Reino, Ra era o deus do mundo dos vivos, havendo referências feitas "àquela balança de Ra onde ele pesa Maat.
PAG 132

. O conceito era que Maat perdurava passando à eternidade. Ele ia para a necrópole com o morto e era depositado ali.
Quando sepultado ou fechado num túmulo, seu nome não morria; era lembrado pelo bem que ele emanava.Em tempos posteriores, o deus Osíris, que estava relacionado com a vida futura, tornar-se-ia juiz dos mortos, presidindo a pesagem do coração de um homem contra o símbolo de Maat. Acreditava-se que o coração era o centro da mente e da vontade.
Antes desse período, o tribunal divino estava sob o deus-sol Ra e a pesagem chamava-se contagem do carácter.
Um dos documentos mais famosos do Egipto Antigo é o Livro dos Mortos, que contém textos fúnebres, cujo uso começou com o Período Imperial e continuou sendo usado em períodos subsequentes. No Livro dos Mortos encontra-se a chamada Confissão a Maat.
Para conseguir um lugar na vida futura, um egípcio precisava confessar que não cometera erra algum; portanto, ele fazia uma verdadeira declaração de inocência, que é o inverso de uma confissão.
Os egiptólogos e historiadores contemporâneos acham que o termo confissão é erróneo.
Contudo, por tradição continuaremos sem dúvida a denominar os textos fúnebres a este respeito no Livro dos Mortos como a Confissão a Maat.
Os textos estão escritos em papiros e falam do tribunal para o egípcio morto.
O juiz é Osíris, ajudado por quarenta e dois deuses que se sentam com ele para julgar os mortos.
Os deuses representavam os quarentas e dois nomos, ou distritos administrativos, do Egipto.
Evidentemente os sacerdotes criaram o tribunal de quarenta e dois juízes para controlar o carácter dos mortos de todas as partes do país. Sendo a ideia de que pelo menos um juiz teria de vir do nomo do morto. Os juízes representavam os vários males, pecados, etc.
O egípcio morto que estava sendo julgado não confessava pecados, mas afirmava sua inocência dizendo:
"Não matei",
"Não roubei",
"Não furtei".
Para os egípcios antigos a morte não era o fim e sim uma interrupção.
O egípcio não devia incorrer jamais no desagrado da sua divindade e do Maat.
O conceito do julgamento sem dúvida causava impressão profunda nos egípcios vivos.
O drama envolvendo Osíris é vívido e descreve o julgamento tal como afretado pela balança.
Um certo papiro, de excelente feitura e arte, mostra Osíris sentado num trono numa extremidade da sala do tribunal, com Ísis e Néftis de pé atrás dele.
Num dos lados da sala estão dispostos os nove deuses da Novena Heliopolitana dirigida pelo deus-sol. No centro está a balança de Ra onde ele pesa a verdade.
A balança é manipulada pelo antigo deus dos mortos,
Anúbis, de cabeça de chacal, e atrás dele, Toth, o escriba dos deuses, que preside a pesagem.
Atrás deste fica o crocodilo monstro pronto para devorar o injusto.
Ao lado da balança, em sutil insinuação, está a figura do destino acompanhada pelas duas deusas do nascimento que estão prestes a contemplar o destino da alma cuja vinda ao mundo elas certa feita presidiram. Na entrada está a deusa da verdade, Maat.
Ela deve conduzir a alma recém-chegada à sala do julgamento.
Anúbis pede o coração do recém-chegado.
Este é posto num dos pratos da balança enquanto no outro aparece a pluma, o símbolo de Maat.
Dirigia-se ao coração e se pedia a ele que não se erguesse contra o morto como testemunha.
O apelo era aparentemente eficaz, pois Toth dizia: "Ouvi esta palavra em verdade. Julguei o coração... Sua alma é testemunha sobre ele. Seu carácter é justo segundo a pesagem da grande balança. Não se encontrou pecado algum nele". Tendo assim recebido um veredicto favorável, o morto é conduzido por Horus, o filho de Íbis, e apresentado a Osíris.
Após ajoelhar-se, o morto é recebido no reino de Osíris.
Na Confissão a Mata, o morto declarava sua inocência.
Afirmava que nada fizera de errado.
Em muitos casos um escaravelho, onde estava escrita uma fórmula, era enterrado com o morto.
Esta fórmula destinava-se a impedir que seu próprio coração se levantasse como testemunha contra ele.
Na 18.ª Dinastia, Amenhotep IV desalojou Osíris e os muitos deuses.
Ele deu evidência e reenfatizou Maat como o símbolo da verdade, da justiça e da rectidão.
PAG 133

O disco solar tornou-se Aton. Amenhotep anexava regularmente o símbolo de Maat à forma oficial do seu nome verdadeiro. Em todos os seus monumentos de estado vêem-se escritas as palavras Vivendo na Verdade, ou Maat.Em conformidade com este fato, Amenhotep chamou sua nova capital de Aquetaton, Horizonte de Aton e O Centro da Verdade.
Esta última referência é encontrada num breve hino atribuído à Amenhotep quando, com sua rainha Nefertiti, ele transferiu sua residência para Aquetaton e a dotou o nome de Akhenaton, que significa aquele que é benéfico a Aton.Os seguidores do conceito monoteísta de Akhenaton estavam plenamente cientes das convicções do faraó sobre Maat.
Com frequência encontramos as pessoas da sua corte glorificando Maat, ou a verdade.
Em sua revolução, Aton, o deus único, era o criador e mantenedor da verdade e da rectidão. Maat, ou a verdade, era a força cósmica da harmonia, da ordem, da estabilidade e da segurança.
Na Era das Pirâmides, Ptah-hotep apresentou o conceito de que o coração era o centro da responsabilidade e da orientação. No tempo de Tutmosis III, na 18.ª Dinastia, declarou-se que "O coração de um homem é seu próprio deus, e meu coração está satisfeito com meus actos".
Pensava-se que esta fosse a voz interior do coração e, com surpreendente percepção, chegou a ser chamada de o deus de um homem. O egípcio tornara-se mais sensível, mais discriminador na sua aprovação ou reprovação da conduta de um homem.
O coração assumiu o equivalente ao significado da nossa palavra consciência.
James Henry Breasted escreveu que da verdade, da rectidão, do conceito de justiça de Maat veio a consciência e o carácter. Akhenaton destacou repetidamente o conceito de rectidão de Maat.
Ele desenvolveu o reconhecimento da supremacia de Maat como rectidão e justiça numa ordem moral nacional sob um único deus.O conceito de Maat do Egipto Antigo prevaleceu intensamente até o Reino do Meio ou começo do Período Imperial.
Durante algum tempo ele esteve relativamente ignorado, mas recuperou sua força no período de toda a 18.ª Dinastia, especialmente durante o tempo de Akhenaton.
Mas na época da 20.ª Dinastia, Maat decaíra.
Havia a ineficiência governamental, a indiferença, a fuga da responsabilidade e a desonestidade.
A consciência social, o interesse de grupo e a integridade pessoal deixavam de existir.
Já não havia mais um homem justo, vivendo em harmonia com a ordem divina de Maat.
Deixara de existir o conceito de carácter, de dignidade humana e decência.
Quando a ordem estabelecida de Maat, sobre a qual se apoiava o modo de vida egípcio, foi descartada, a vida perdeu o significado.
A antiga verdade, Maat, que predominara por uns dois mil anos, deixara de se impor.
Temos de reconhecer pela monumental evidência que, para os egípcios antigos, o conceito de Maat criou uma grande sociedade humana onde havia justiça na pessoa humana e social.
O LIVRO DO MORTOS
Ressurreição e vida futura, a grande ideia central da imortalidade, o viver no além túmulo, a natureza divina e o julgamento moral dos mortos, tudo isso está na colecção de textos religiosos que é o Livro dos Mortos, cujo verdadeiro nome é "Saída para a Luz do Dia" e é o 1o livro da humanidade. O medo do desconhecido foi a causa que impulsionou o homem, apavorado com os trovões e raios, terramotos e vulcões, para um ser superior a ele, que assim se manifestava sobre as coisas do seu entorno.
Com o tempo, há uma evolução e o homem começa a temer as acções desse ser superior sobre sua vida e, depois, em suas manifestações sobre sua morte, nesse ponto o homem supera o animal e desponta como ser humano, e começa a enterrar os seus mortos e a lhes oferecer meios de sobreviver na vida eterna em suas tumbas, numa prática de oferendas mortuárias que perdura até hoje, através das ofertas de flores e outras dádivas nas sepulturas.
No Egipto, desde 4.400 a.C., no reinado de Mena o 1o rei histórico do país, I Dinastia, o egípcio esperava comer, beber, e levar uma vida regalada na região em que supunha estar o céu e ali partilharia para sempre, em companhia dos deuses, de todos os gozos celestiais.
Já na IV dinastia, (3.800 a.C.), todos os textos religiosos supõem que se imune o corpo por inteiro, mumificado/embalsamado cujo procedimento era o seguinte: o cérebro do cadáver era extraído pelas narinas, as entranhas pelo ânus, ou por uma incisão na barriga;
Por fim o coração era retirado e substituído por um escaravelho de pedra. Seguia-se uma lavagem e salgação onde o cadáver ficava por um mês.
Era secado novamente por outro mês ou dois.

PAG 134

Para evitar a deformação, o corpo era recheado de argila, areia, rolos de pano de linho, inclusive os seios, e embebidos em drogas aromáticas, unguentos e betume.
Geralmente o amortalhamento era feito em vários ataúdes de madeira, uns dentro dos outros e, finalmente, colocado em um sarcófago de pedra.
O HOMEM EGÍPCIO E A SUA CONCEITUAÇÃO
A religião egípcia elabora um conceito complexo, e sofisticadíssimo, para entender/explicar a natureza do homem que, por ela, é composto de 8 partes:"O corpo físico era o CAT, ligado a esse CAT estava o duplo do homem o CA, cuja existência é independente do CAT podendo ir para lugares à sua vontade, as oferendas são para alimentar
O CA que come, bebe e aprecia o cheiro do incenso.
À alma chamava-se BA que é algo sublime, nobre, poderoso. O Ba morava no CA e tinha forma e substância e aparece como um falcão com cabeça humana nos papiros.
O coração, AB, era a sede da vida humana.A inteligência espiritual, ou o espírito do homem, era CU e era a parte brilhante e etérea do corpo e vivia com os deuses no céu.
Outra parte do homem que, também, ia para o céu era o SEQUEM que era a sua força vital.
Outra parte do homem era o CAIBIT, ou sombra, sempre considerada próxima à alma, o BA.
Por fim, temos o REN que é o nome do homem e que é uma de suas partes mais importantes pois se o nome for eliminado poder-se-á destruir o homem. Ou seja, o homem se constituía de corpo, duplo, alma, coração, inteligência espiritual, poder vital, sombra e nome e essas 8 partes podem se reduzir a 3 partes corpo, alma e espírito, deixando-se de lado as 5 outras". Na V dinastia (3.400 a.C.) afirmava-se de modo preciso:
"A alma para o céu e o corpo para a terra".
O JULGAMENTO DA ALMA E A VIDA ETERNA
A religião egípcia, como todas as outras religiões antigas, com excepção do Budismo, apresenta os deuses como seres com os vícios e virtudes dos homens porém, muito mais sábios e com a magia que os torna muito mais poderosos.
Graças ao Livro dos Mortos, o defunto pode vencer todos os obstáculos e ser convertido em Espírito Santificado, após cruzar os 21 pilares, passar pelas 15 entradas, e cruzar 7 salas até chegar frente a Osíris e aos 42 juízes que irão julgá-lo.
E graças ao Livro, ele sabe o que pode salvá-lo e conduzi-lo à morada dos deuses após transpor as Portas da Morte, onde, no Campo de Paz, gozará os prazeres da Vida Eterna entre os deuses.
O Livro ajuda a alma a se refazer do susto da morte quando tenta voltar ao corpo porém os deuses, encarregados de guiá-la, arrastam-na para longe do ataúde. Sempre guiada, a alma atravessa uma região de trevas, o Aukert, o Mundo Subterrâneo, sem ar e água, difícil e muitas vezes obstruída. Depois ela chega ao Amenti, onde mora Osíris que, imóvel e enigmático, contempla a alma tendo atrás de si suas irmãs, e esposas, Ísis e Néftis; a alma é conduzida por Horo, e Anúbis verifica o fiel da balança, e pesa o coração do defunto na balança, junto a uma pena, na presença da deusa da Justiça/Verdade, Maât, que não toma parte no julgamento, e mais os 42 deuses (cada um representa um nome do Egipto) e, ante cada um, o falecido o interpela pelo nome e declara não ter cometido determinado pecado é a "Confissão Negativa" do papiro de NU (os 10 Mandamentos): "Nada surja para opor-se a mim no julgamento, não haja oposição a mim em presença dos príncipes soberanos, não haja separação entre mim e ti na presença do que guarda a Balança. Não deixe os funcionários da corte de Osíris (cujo nome é "O Senhor da Ordem do Universo" e cujos 2 Olhos são as 2 deusas irmãs, Ísis e Néftis) que estipulam as condições da vida do homens, que meu nome cheire mal !. Seja o Julgamento satisfatório para mim, seja a audiência satisfatória para mim, e tenha eu alegria de coração na pesagem das palavras.
Não se permita que o falso se profira contra mim perante o Grande Deus, Senhor de Amenti". É de um texto da época de Mencau-Ra (Miquerino dos gregos) 3.800 anos a.C., IV Dinastia. E Tot anota o resultado e faz o seguinte discurso aos deuses:
"Ouvi esse julgamento,............verificou-se que ele é puro,............ E ser-lhe-ão concedidas oferendas de comida e a entrada à presença do deus Osíris, juntamente com uma herdade perpétua no Sekht-Ianru, o Campo de Paz (Paraíso), como as que se consideram para os seguidores de Horo". O papiro de NU permite observar que o código moral egípcio era muito abrangente pois o falecido afirma que não lançou maldições contra deus, nem desprezou o deus da cidade, nem maldisse o faraó, nem praticou roubo de espécie alguma, nem matou, nem praticou adultério, nem sodomia, nem crime contra o deus da geração, não foi imperioso ou soberbo, nem violento, nem colérico, nem precipitado, nem hipócrita, nem subserviente,
OAG 135

nem blasfemador, nem astuto, nem avaro, nem fraudulento, nem surdo a palavras piedosas, nem praticou más acções, nem foi orgulhoso, não aterrorizou homem algum, não enganou ninguém na praça do mercado, não poluiu a água corrente pública, não assolou a terra cultivada da comunidade. Desde os tempos mais remotos, (II Dinastia), a religião egípcia tendeu para o monoteísmo que aflorou na XVIII Dinastia, (1.500 a.C.), com Amenófis IV e sua rainha Nefertiti, a Bela, e seu deus Aton para quem constrói uma cidade fora de Tebas, Tel El Amarna, esse culto durou apenas no seu reinado e, depois, foi proscrito de todo Egipto.
Lembremos que os seguidores de cada grande religião do mundo nunca se livraram das superstições que sabiam ser produto de seus antepassados selvagens e que, em todas as gerações, as herdam de seus avós e, o que é verdadeiro em relação aos povos do passado é verdadeiro, até certo ponto, em relação aos povos de hoje.
No Oriente, quanto mais velhas forem as ideias, crenças e tradições, mais elas serão sagradas.
No Egipto foi desenvolvido um códice de elevadas concepções morais e espirituais, extremamente sérias e maduras, entre elas, a do DEUS UNO, auto gerado e auto existente, que os egípcios adoravam.•
A MUMIFICAÇÃO
A mumificação para os egípcios era um meio de se encontrar pronto para a vida após a morte.
Além do desejo de conservar o corpo para a eternidade, de se escapar do desaparecimento Material de decomposição, o morto deseja conhecer o destino de Osíris.
Para eles era muito Importante ter o corpo purificado para a travessia desta vida para a outra, onde encontrariam com seus deuses e se passassem pelas provas conseguiriam ter a eternidade de seus corpos.
No antigo império só o Faraó tem alma porque ele é o filho de Rá, já no médio império quando o Egipto já estabelecido e o culto de Osíris traz a possibilidade de ressurreição à humanidade, então não só o Faraó se torna Osíris, mas todas as pessoas e todas as coisas que morrem podem ressuscitar em Osíris, ou seja o egípcio passa a ter alma.
O PROCESSO DE MUMIFICAÇÃO:
Existem 3 tipos de mumificação utilizados pelos egípcios:
1) MUMUFICAÇÃO SOLAR DO EGÍPTO FARAÓNICO
O rei morre e o seu corpo é cozinhado até as carnes se desprendem.
Os ossos são pintados de vermelho, enfaixados, fazendo-se uma estocagem na múmia com gesso. Pinta-se o retrato da pessoa na própria múmia. E esta se forma ao mesmo tempo em uma estátua Ka Ou seja, uma estátua que vai abrigar a alma do morto.
2) MUMIFICAÇÃO OSÍRIANA
Este processo é o que conhecemos e que se tornou mais utilizado.
Para o Faraó, para a nobreza e pessoas mais ricas, era feita da seguinte forma:
1) O cérebro é tirado pelas narinas, através de um instrumento curvo, mexe-se no cérebro que é uma massa mole, e este se liquefaz. Injecta-se vinho de tâmara, ajudando a dissolver mais o cérebro. Vira-se o morto e o cérebro escorre pelas narinas.
2) Abrem uma incisão no abdómen e retiram todos os órgãos internos, menos o coração, e colocam em jarros chamados de Canopos (devidamente embalsamados).
Em seguida enchem o corpo com saquinhos de sal (Natrão),colocam o corpo mergulhado em uma espécie de bacia um pouco inclinada com um furo de um lado para que os líquidos do corpo escorram. E literalmente enterram a múmia por 72 dias. Sal retira todo o líquido do corpo.
3) Após estes 72 dias, eles retiram o corpo que está escurecido e ressecado.
Inchertam resinas, aromas, perfumes, bandagem pó de cerra, isto para dar a conformação do corpo. Depois disto, costuram a abertura no abdómen, colocam uma placa mágica, geralmente com o desenho dos 4 filhos de Hórus e do olho de Hórus.
4) Começa, então, o processo de enfaixamento com metros e metros de tiras de pano de linho com goma arábica, até fazer a composição que vemos nas múmias.
A cada volta, colocam amuletos e colares.
Assim a múmia está pronta para o enterro. Sendo que no caso do Faraó, este enterro é cercado por um ritual extenso por sacerdotes, procedendo ao ato da mumificação com encantamentos.•
3) MUMIFICAÇÃO PARA PESSOAS DE CLASSE BAIXA
Dão um injecção de essências e de vinho corrosivos através do ónus, põe uma espécie de tampão e depois de alguns dias tiram-no, o que dissolveu,
PAG 136

Então eles enfaixam a múmia e devolvem o corpo para os parentes.
O que devemos observar é que o que se preserva o corpo da múmia no Egipto é o solo egípcio, pois é rico em calcário, areia e sal.
Então mesmo a pessoa que não tivesse condições de colocar o corpo do morto para ser mumificado, em seu próprio quintal colocando-se o corpo em uma esteira, enfaixando, amarrando-o e o enterrando, o corpo ainda sim seria preservado.
FIQUE SABENDO:
No processo de mumificação Osiriano, que é feito por uma casta sacerdotal, quando o corpo vai ser mumificado, eles estão revivendo o mito Osiriano (Quando Seth, irmão de Osíris, retalha o corpo deste). Então o sacerdote que vai abrir o corpo do morto, que é o corpo de Osíris, estará desempenhando o papel de Seth matando Osíris.
Os outros sacerdotes o expulsam, em termos, apedrejam o sacerdote que abriu o corpo do morto. Quando as múmias foram sendo encontradas, muitas foram comercializadas e quando o comércio delas acabou e ninguém mais se interessava em compra-las, alguns ladrões de túmulos decidiram triturar este pó achando que haveria algum poder de cura para seu tipo de doença.
A múmia mais famosa encontrada é a de TUTANKHAMON, pois nela foram encontradas todas as riquezas que foram enterradas com o rei.
Os ladrões de túmulos não chegaram a encontrar a câmara mortuária deste rei.
RITUAL PARA A PASSAGEM PARA O ALÉM
Os rituais eram feitos antes de o cadáver ser depositado no túmulo já preparado para o efeito,juntamente com sua dotação funerária, num cortejo cerimonial acompanhado pelos lamentos das carpideiras, realizava-se pelo menos imaginariamente, a peregrinação a Abidos.
A peregrinação de culto a Abidos era uma viagem do lugar sagrado ao deus dos mortos Osíris, e estava intimamente ligada à crença neste deus. A procissão fúnebre que se realizava depois do embalsamento do corpo está representada nos túmulos como nos papiros do Livro dos Mortos.
O defunto era transportado em urna até a necrópole, seguida imediatamente pelo tabernáculo com as caixas dos vasos canótipos, os utensílios de cultos, a dotação e as oferenda.
Os familiares, os sacerdotes e as capacidades integravam o cortejo até ao túmulo, onde a múmia era submetida ao ritual de abertura de boca. Neste um sacerdote sem, em representação do filho mais velho do defunto, procedia a uma espécie de reanimação da múmia ou da sua estátua.
Os rituais de purificação, a queima de incenso e a aplicação de unguentos no rosto e em várias partes do corpo, durante cerimónias que podiam repetir-se até 75 vezes, mostram claramente a convicção de que através destas o defunto recuperaria as suas funções tanto corporais como espirituais. Em suma, pode dizer-se que os rituais de enterramento tinham como objectivo ajudar cada defunto a alcançar uma vida nova, tão segura quanto possível no Além.
OS TEXTOS DOS SARCÓFAGOS
Durante o Primeiro Período Intermediário (c. de 2134 a 2040 a.C.) os sepultamentos tornaram-se menos elaborados e a tumba raramente era decorada.
Foi dada, então, uma maior atenção para o sarcófago, o último receptáculo do corpo.
Usava-se com frequência caixões de madeira, geralmente decorados nas partes internas com textos e ilustrações que desempenhavam a mesma finalidade das inscrições e cenas murais usadas nos túmulos do Império Antigo: assegurar o bem estar do morto através de meios mágicos. Esquifes dessa espécie eram muito comuns durante a XI dinastia e também foram usados no sepultamento de nobres provinciais e oficiais de prestígio durante a XII dinastia, já no Império Médio. Foi justamente a partir desses períodos que os textos das pirâmides, anteriormente de uso exclusivo dos faraós, passaram a ser empregados também pelos nobres e pequenos chefes locais como a parte mais importante da decoração de seus esquifes.
Nessa nova utilização os textos sofreram alterações: grande parte das fórmulas mágicas e dos rituais foi eliminada ou modificada, adaptando-se ao emprego por pessoas comuns.
Os escritos deixaram de apresentar um tom dogmático e oficial para se tornarem reflexos dos desejos e preocupações de seres humanos. São comuns fórmulas que visam garantir oferendas funerárias ao morto e pedidos de protecção a vários deuses do panteão egípcio.
Essa colecção de textos funerários — que os arqueólogos modernos chamam de textos dos sarcófagos — passaram a ser redigidos em escrita hieroglífica cursiva na parte interna dos caixões rectangulares usados para sepultamento nessa época histórica.

PAG 137

Os títulos eram grafados com tinta vermelha e o restante do texto com tinta preta, imitando os manuscritos sobre papiro. Em uma das laterais de sua parte externa, tais ataúdes de madeira podiam exibir os dois olhos de Hórus, que tantos serviam de amuleto de protecção para o corpo do morto como lhe permitiam olhar para o exterior.
Às vezes, por sob os olhos, desenhava-se uma porta falsa pela qual o espírito do morto poderia deixar o caixão. Outra característica bastante comum nesses sarcófagos era a existência do assim chamado friso de objectos, os quais continham representações de vários objectos: alguns eram amuletos e outros destinavam-se a um uso prático.
Aliás o espírito de praticidade dos egípcios também se manifestava nos assuntos funerários.
No sarcófago de um alto oficial de nome Gua, por exemplo, vê-se um mapa pelo qual o falecido poderia encontrar o seu caminho no mundo subterrâneo.
A adaptação feita dos textos das pirâmides para uso por pessoas que não pertenciam à realeza foi o resultado de uma democratização da vida dos egípcios, a qual se seguiu à quebra do poder real exclusivo, ocorrida no final do Império Antigo.
A anarquia política do Primeiro Período Intermediário fez com que surgissem diversos tipos de questionamentos, inclusive no que se refere às crenças funerárias.
O resultado foi a ampliação do "direito" de obter uma boa vida no além-túmulo para todos aqueles que pudessem pagar por isso através, entre outras coisas, da inscrição de fórmulas mágicas salvadoras em seus ataúdes. Isso, entretanto, não descartava os ensinamentos de que a virtude moral do morto também era muito importante.
•
... (Texto do 2º milénio a. C., in A. Moret,

Nenhum comentário:

Postar um comentário