sábado, 7 de novembro de 2009

CAPITULO 38 = RELIGIÃO MUCULMANA = HISTÓRIA DO ISLÃO

RELIGIÃO MUÇULMANA

CAPITULO 38
HISTÓRIA DO ISLÃO
O estudo das divisões dinásticas e políticas convencionais do Islã permite retratar como os muçulmanos, ao longo de 14 séculos, conquistaram novos povos e construíram uma civilização e religião internacional.O Islã foi fundado no século VII da era cristã, na Arábia, por Maomé, como uma religião monoteísta que enfatiza a adesão rigorosa a certas práticas religiosas. A religião muçulmana, assentada na escritura sagrada, o Alcorão, converteu-se numa força unificadora de diversos povos, a partir do elemento original árabe.
O império que se formou em virtude da expansão muçulmana pelo Oriente e Ocidente não foi apenas árabe, tampouco teve uma tendência religiosa única. Apesar de criadas diversas facções e seitas, o sentimento de coesão do mundo muçulmano não diminuiu.
Essa coesão baseou-se no monoteísmo e na prática religiosa, regedora também da vida civil e da justiça, e principal impulsionadora da expansão territorial, da pregação e da guerra santa.
ARÁBIDA PRÉ- ISLÃMICA
A península arábica, um grande planalto desértico cercado por cadeias de montanhas e coberto de areia, impôs condições geográficas duras às populações árabes pré-islâmicas, que se adaptaram de forma dispersa e variada.A diferença de clima entre o norte e o sul constituiu fator fundamental para determinar as condições de vida.
No sul, as monções (ventos sazonais) procedentes do oceano Índico favoreciam a agricultura.
Enquanto isso, no norte e no centro da península, as grandes extensões desérticas e as estepes impediam o cultivo, a não ser nos oásis, e impunham a seus habitantes uma vida nômade. Alguns oásis na região do Hedjaz deram origem a cidades como Yathrib (a Medina islâmica) e Meca, na rota das caravanas entre a Índia e o Ocidente. A grande maioria da população era composta de tribos independentes de beduínos nômades, cada uma das quais sob o comando de um xeque.
No povo árabe, distinguiam-se tradicionalmente dois grupos rivais: os árabes do sul, ou iemenitas, descendentes de Abraão por Qahtan e sedentários, e os árabes do norte, nizaritas, descendentes dele por Ismael e nômades. Esses grupos dividiram-se em muitos ramos, mas mantiveram sua rivalidade.O sul da Arábia conheceu diversas culturas a partir do século IX a.C., quando floresceu o reino de Mineu. O reino de Sabá criou a lenda da proverbial riqueza da Arábia, baseada no comércio de materiais preciosos com a Índia.
A região norte, por sua vez, teve um desenvolvimento mais tardio.
A sociedade, fundamentalmente tribal e nômade, constituía-se de ricos cameleiros, que viajavam seguindo rotas determinadas, e de pastores de ovelhas pobres.
Outros nômades foram-se estabelecendo de forma sedentária e pagavam tributo aos beduínos do deserto para assegurar sua proteção. Esses grupos, entretanto, não estavam organizados em unidades políticas superiores e viviam em constante confronto.
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As hostilidades só se amenizaram em virtude das tréguas religiosas e de uma espécie de código de honra estabelecido com base na vingança.
Os habitantes das cidades prosperaram economicamente em comparação com os nômades.
Meca desenvolveu-se como centro do comércio entre o oceano Índico e o mar Mediterrâneo.
Também estabeleceram-se na cidade criadores de gado, e surgiram diversas atividades vinculadas às comunicações e à passagem de caravanas. Nas regiões de fronteira com a Síria, algumas tribos árabes emigraram em direção ao norte, onde organizaram vários estados.
Exemplos deles são o dos nabateus, cuja escrita daria origem ao árabe; o dos gassânidas, relacionados com Bizâncio como guardiães da fronteira sírio-palestina; e o reino de Hira, na fronteira mesopotâmica, submetida ao império persa sassânida.
Os súditos deste último reino viriam a desempenhar importante papel na conquista árabe.
Converteram-se imediatamente ao Islã e, graças a sua boa organização militar, contribuíram para a vitória dos exércitos árabes. Até o fim do século V, tentou-se unificar as tribos da Arábia central.
O reino de Kinda, de curta duração, representou um esforço pela união política.
Os árabes da península adotavam uma religião politeísta, com divindades locais ou tribais, em muitos casos de caráter astral, e que para eles viviam em pedras sagradas (abadir).
Os habitantes de Meca possuíam também uma deusa da felicidade e outra do céu e, acima delas, Alá (Deus), que no século VII era o Senhor do Templo, ou da Caaba, em Meca.
No século IV, Alá deixara de ser o único deus para os seminômades das estepes sírias.
Maomé e o estabelecimento do poder islâmico. Maomé, que de acordo com a tradição nasceu por volta do ano 570, era membro do respeitado clã Hachim, da tribo dos coraixitas.
Órfão e sem recursos, foi educado por um tio. Aos 25 anos, casou com a viúva Cadidja, para cujo serviço havia sido contratado. Após a morte de Cadidja, Maomé teve outras 18 esposas e consumou o casamento com nove delas. Segundo a tradição, o profeta, aos quarenta anos, teve uma visão do anjo Gabriel e soube que Alá o tinha escolhido para ser seu enviado e pregar sua palavra. As revelações de Alá a Maomé foram mais tarde reunidas no Alcorão (que significa "recitação"). No princípio, o profeta encontrou obstáculos para a pregação em sua cidade natal, entregue ao paganismo, e foi obrigado a emigrar para Medina:a chamada hégira (emigração, separação) marcou o início da era islâmica, em setembro do ano 622.
Em Medina, Maomé transformou-se em chefe teocrático e substituiu as antigas organizações tribais pela ummah, ou comunidade de crentes, fundamentada no vínculo religioso.
Dois anos depois, a vitória na batalha de Badr, entre os habitantes de Meca e Medina, foi para Maomé uma prova de que Alá estava do seu lado. O prestígio de Maomé cresceu e, após uma campanha para expulsão dos judeus de Medina, o profeta se tornou senhor absoluto da cidade. Em 630, entrou em Meca e conseguiu a rendição pacífica dos chefes coraixitas.
O apoio dos habitantes de Meca foi definitivo para a consolidação do novo poder.
A expansão do Islã iniciou-se com uma primeira campanha militar contra a Síria.
Antes de morrer, em 632, Maomé conseguiu impor sua autoridade a grande parte da Arábia.
Primeiros califas. Maomé não deixou herdeiro varão nem estabeleceu regras a respeito de sua sucessão. Tudo isso engendrou uma crise política que se resolveu com a eleição, como primeiro califa, de Abu Bakr, encarregado por Maomé de dirigir a oração.
Antes de morrer, Abu designou seu sucessor, Umar, que foi assassinado dez anos mais tarde, em 644. Depois dele, Uthman, da dinastia omíada, ocupou o califado até 656, ano em que foi assassinado. Finalmente, Ali, primo e genro de Maomé, assumiu o poder.
Com os quatro primeiros califas, o Islã iniciou sua expansão.
Primeiro, conseguiu a pacificação da península arábica e a eliminação dos falsos profetas.
O principal objetivo das conquistas muçulmanas eram a pregação e a propagação da fé. Síria, Mesopotâmia, Pérsia, Egito e Cirenaica foram as primeiras
conquistadas. Realizaram-se também incursões na Anatólia, nas ilhas do mar Egeu, no norte da África e na Armênia. A conquista árabe não seguiu um plano estratégico de grande alcance; foi antes um movimento natural das tribos árabes acostumadas ao nomadismo – e agora também levadas pelo desejo de converter os povos à nova fé --, em direção aos territórios habitados por populações agrícolas e sedentárias.
CALIFADO OMÍADA
A dinastia omíada começou em 661, com Moawia I, e terminou em 750.


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A capital mudou de Medina para Damasco, onde os omíadas criaram uma autêntica realeza árabe ao adotarem o princípio dinástico, pelo qual, antes de morrer, cada califa designava como herdeiro seu filho – o que rompia a tradição dos primeiros sucessores de Maomé.
Os omíadas transformaram a antiga organização tribal em monarquia centralizada.
sistema administrativo e fiscal que instauraram propiciou um grande enriquecimento do império e favoreceu a islamização, pois os súditos não muçulmanos dos territórios anexados tinham que pagar impostos maiores que os convertidos à nova fé. A dinastia omíada impulsionou a arquitetura muçulmana e criou as grandes mesquitas de Damasco, Medina e Jerusalém.O império muçulmano do primeiro século da hégira era fundamentalmente árabe e estava unido pela revelação corânica. Os omíadas integraram os sírios convertidos e permitiram que participassem da organização estatal. O povo conquistado aprendeu rapidamente o árabe – que chegou a ser sua língua oficial – e converteu-se ao Islã (muitos eram cristãos).
Durante os cem anos que durou a dinastia omíada, os califas tiveram que enfrentar inúmeras dificuldades de ordem interna. Além do antagonismo entre a Arábia do norte e a do sul, lutaram contra os caridjitas e contra um partido que agrupava muitos descontentes que pretendiam devolver o centro do poder à Arábia. Mesmo assim, criaram as bases da grande civilização muçulmana. Nesse período, começaram a desenvolver-se as ciências jurídicas e teológicas, que, mais tarde, durante a dinastia abássida, alcançariam seu esplendor máximo.
No que se refere à expansão das fronteiras do Islã, os omíadas conseguiram a maior extensão territorial alcançada pelo império muçulmano. Chegaram à Tripolitânia, conquistaram o Maghreb e dominaram o norte da África entre os anos 697 e 707. Invadiram e conquistaram a península ibérica e chegaram à França, onde foram detidos na batalha de Poitiers por Carlos Martel, em 732. No Oriente, conseguiram dominar Pérsia, Afeganistão, Transoxiana e o Turquestão chinês e penetraram pelo norte da Índia em Sind, Punjab e Ode.
O Islã, nessa época, estendia-se das fronteiras da China ao oceano Atlântico.
O povo árabe, praticamente desconhecido na antiguidade, havia imposto seu domínio sobre uma enorme extensão geográfica e transmitido aos povos conquistados sua religião e sua língua. Nas províncias imperiais, os cristãos e judeus eram considerados cidadãos de categoria social inferior em relação aos muçulmanos, mas reconhecidos como crentes e chamados "povos do Livro", noção que abrange todos os povos detentores de uma escritura sagrada. Por extensão, incluíram-se entre eles os zoroastristas da Pérsia. Os súditos não eram obrigados a converter-se ao Islã, mas apenas a submeter-se ao direito penal e civil islâmico. Os conflitos internos que afetaram diretamente o califado omíada deveram-se fundamentalmente ao confronto com as tendências que condenavam o abandono das primeiras tradições do Islã. Nesse contexto, os xiitas organizaram-se como um forte grupo de oposição ao poder omíada, por eles considerado ilegítimo.
Os primeiros califas souberam enfrentar esses movimentos.
Em 680, Yazid I sufocou a rebelião de Hussain, filho de Ali, que foi transformado em mártir pelos xiitas. Depois do califa Walid I (705-715), que levou o império a sua expansão máxima, as desavenças se agravaram e o poder da dinastia declinou. Os rebeldes de Khorasan e do Iraque conseguiram vencer a dinastia omíada em agosto de 750, quando foi derrotado o califa Marwan II.
Apenas um dos membros do império, Abd al-Rahman I, conseguiu fugir e fundou a dinastia omíada de Córdoba, na Espanha. Abu al-Abbas proclamou-se o novo califa.
CALIFÁDO ABÁSSIDA
A dinastia abássida mudou a sede do império para o Iraque e situou a capital em Bagdá.
Os abássidas, e o importante contingente de persas em que se apoiavam, transformaram-se em restauradores da tradição islâmica, supostamente traída pelos omíadas.
Reforçaram o poder teocrático do califa e deram mais pompa ao cerimonial da corte.
O êxito da conspiração que havia levado a dinastia ao poder determinou, nos primeiros tempos, uma atitude tolerante quanto à diversidade de elementos étnicos e culturais que sustentava. O califado sofreu grande influência da civilização persa, que adotou o sistema muçulmano em suas estruturas e regras, de modo bastante superficial.
Em consonância com a tradição persa, o direito divino do monarca fortaleceu-se e o sistema político islâmico alcançou seu perfil definitivo. O novo califado assumiu o papel de defensor da fé, mais forte e menos questionado, já que não existia uma hierarquia religiosa reconhecida.A designação do califa assegurava-se, em princípio, pela escolha de um herdeiro entre seus filhos. A época de esplendor correspondeu ao reinado de Harun al-Rashid,


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no período compreendido entre os anos 750 e 833. Bagdá transformou-se em importante centro cultural, o que representou o desenvolvimento pleno da civilização cortesã e urbana do Islã.
As ciências e as letras passaram por extraordinário desenvolvimento, e muitas vezes incorporaram aspectos de outras culturas, como a indiana, a greco-latina e a persa.
Também prosperou a atividade econômica, baseada na manufatura de sedas, tapetes, telas bordadas e papel reciclado de tecido (técnica proveniente da China), e nas transações comerciais entre Oriente e Ocidente.A criação dos vizirados, no período anterior, possibilitara uma certa descentralização do poder imperial concentrado no califa, que passou a contar com emissários e delegados. O testamento de Harun al-Rashid estabeleceu a ordem de sucessão ao trono e abriu caminho à divisão efetiva do império.
Após sua morte, em 809, as ambições pessoais fracionaram o Islã em principados mais ou menos autônomos. A luta entre dois dos filhos de Harun al-Rashid levou ao assassinato do califa al-Amin, de linhagem árabe, em 813, e conduziu ao poder al-Mamun, de mãe persa.
Com o reinado de al-Mamun, os árabes desapareceram da cena política.
Prevaleceu ainda mais a influência dos persas, e sua cultura impregnou todos os aspectos da vida de Bagdá. Também foi ganhando importância o número de soldados turcos recrutados na Ásia central para o exército islâmico. Esses mercenários tiveram influência ainda maior que a dos árabes, a ponto de modificar o poder político do Islã.
Os mercenários turcos da guarda do califa e seu chefe, o "emir dos emires", governaram Bagdá mas permitiram que o califa mantivesse seu prestígio espiritual.
A esse avanço do poder turco no império somaram-se as tensões sociais provocadas pelo desequilíbrio resultante do desenvolvimento econômico desigual.
As classes baixas, afundadas na miséria, aderiram aos programas extremistas das seitas xiitas, que provocaram diversas revoltas nos dois últimos anos do século IX e nos primeiros do século X. A devastação da Síria e do Iraque por parte dos bandos chamados cármatas e a sublevação de camponeses e artesãos propiciaram a constituição do estado de Bahrein, cujas tropas conseguiram apoderar-se de Bassora e Kufa, e em 930 saquearam Meca.
No século X, apareceram principados independentes e acelerou-se a fragmentação do império abássida.
O emirado andaluz, fundado em 756, transformou-se em califado independente em 929.
Os reinos do Maghreb tornaram-se praticamente autônomos e, no Oriente, criaram-se diversos estados iranianos no Khorasan. No Egito e na Síria, também se formaram estados independentes.
Durante o século X, cada uma das grandes famílias do Islã criou um reino: o califado omíada consolidou-se em Córdoba; os descendentes do califa Ali e de Fátima (filha de Maomé) instalaram-se no Egito; e, em Bagdá, a dinastia abássida manteve-se até 945, quando caiu sob o poder de Ahmad al-Buye, um xiita das montanhas iranianas.Seu sucessor conseguiu apossar-se de um império que compreendia dois terços do Irã e a Mesopotâmia.
A dinastia dos buáiidas desapareceu com a chegada dos turcos seldjúcidas em 1055.
Califado omíada de al-Andalus.
A Espanha muçulmana era uma província independente desde o estabelecimento do poder abássida. O último omíada, Abd al-Rahman I, fugiu da matança de sua família em Damasco e refugiou-se na península ibérica, de onde, com a ajuda dos berberes e dos árabes da Síria, apoderou-se de Córdoba em 756 e dominou a maior parte do país.
Em 929, o emirado foi transformado em califado por Abd al-Rahman III.
Durante seu reinado, os povos cristãos do norte sofreram sangrentas derrotas, ao tentarem reconquistar o território.No fim do século X, os muçulmanos espanhóis lançaram expedições devastadoras sobre Barcelona, Leão, Santiago, Zamora e Coimbra.
Ampliou-se o domínio do califado, e Córdoba conheceu enorme esplendor, que se manteria durante o século seguinte. As tradições sírias permaneceram vivas, e a refinada cultura cordobesa rivalizou com a de Bagdá. A destruição do califado de Córdoba foi conseqüência de diversas questões relacionadas com o progressivo enfraquecimento do poder.
Em 1031, foi destituído o último califa omíada.
A Espanha muçulmana dividiu-se em reinos de taifas (facções).
Ao longo dos séculos XI e XII, almorávidas e almôadas, povos do norte da África, vieram em auxílio desses reinos, que sucumbiram progressivamente ante o avanço da reconquista cristã. O último reduto muçulmano foi o reino nazarita de Granada, que caiu em 1492 em poder dos reis católicos, Fernando e Isabel.
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PODER SELDJÚCIDA
Em meados do século XI, iniciou-se uma mudança decisiva no mundo islâmico:
os turcos seldjúcidas, convertidos à ortodoxia muçulmana dos sunitas, reunificaram durante algum tempo o Oriente Médio. Formavam um conjunto de clãs estabelecidos, nos séculos anteriores, ao longo das fronteiras ocidentais da China. Alguns deles permaneceram dentro das fronteiras do império islâmico e, após converterem-se, iniciaram campanhas de penetração em direção ao Ocidente e ao Oriente, contra os gaznévidas, que haviam islamizado a Índia.
Togrul Beg avançou sobre o Irã e a Anatólia para atacar o império bizantino.
Penetrou pelo sul no Iraque, cuja capital, Bagdá, ocupou em 1055, e se fez reconhecer como sultão e protetor do califa. Os três grandes sultões seldjúcidas, Togrul Beg, Alp-Arslan e Malik-Xá, ajudados pelo vizir persa Nizam al-Mulk, deram a seu império uma organização política e social que serviria de modelo a todo o oriente islâmico. Além disso, transformaram-se em defensores da ortodoxia muçulmana sunita. Invadiram a Anatólia e estabeleceram-se na Síria e Palestina, até que os cruzados cristãos fundaram principados na região.
O império seldjúcida dividiu-se, com a morte de Malik-Xá, entre seus filhos e irmãos.
Os governadores locais tornaram-se independentes e fundaram dinastias locais na Síria, Mesopotâmia, Armênia e Pérsia. Na luta contra os cruzados, destacaram-se sobretudo os aiúbidas do Egito, cujo califa, Saladino, apoderou-se de Jerusalém em 1187.
IMPÉRIO MONGOL.
A invasão das tropas mongóis acabou definitivamente com o califado de Bagdá, aparentemente mantido durante o império seldjúcida. Em meados do século XIII, o império mongol, fundado por Gengis Khan, penetrou em território muçulmano, depois de haver unificado a Mongólia e iniciar a conquista da China. Os mongóis derrubaram os príncipes dos reinos islâmicos:
Bagdá caiu em 1257, e Alepo e Damasco, no ano seguinte.
O califa e sua família foram assassinados.
Os mongóis toleravam diversas religiões, como o paganismo, o budismo, o cristianismo e o nestorianismo. Isso permitiu-lhes fazer alianças com os cruzados contra o último reduto do Islã no Oriente: os mamelucos do Egito, que, sob o comando de Baibars, haviam dado proteção aos descendentes do califa. Baibars derrotou os mongóis e tornou-se sultão do reino da Síria e do Egito. No fim do século XIV, o império mongol dividiu-se em várias dinastias locais. Mais tarde, foi aniquilado por um turco muçulmano, Tamerlão (Timur Lang), que tentou reconstruir a unidade política da Anatólia e revitalizar o islamismo sunita. Dominou a Índia, a Síria e a Anatólia, mas seus descendentes não conseguiram manter o império, que ficou reduzido à parte oriental do Irã. Impérios do deserto. Nos séculos XI, XII e início do XIII, o Maghreb esteve sob o domínio de grandes tribos berberes de tendência sunita: os almorávidas, nômades do Saara originários de uma seita guerreira, e os almôadas, sedentários das montanhas.
Esses povos se estabeleceram firmemente em boa parte do norte da África ocidental e na península ibérica. Os almorávidas se constituíram a partir das pregações do missionário muçulmano Abdala ibn Yasin, que preconizava extrema disciplina, baseada na oração e na formação religiosa e militar para a guerra santa.
Após um período de lutas, sua doutrina ganhou as tribos do oeste do Saara.
Os almorávidas consideravam-se defensores da ortodoxia islâmica e chegaram a conquistar o norte da África e Andaluzia (al-Andalus, como era chamada a Espanha muçulmana).
O movimento desses grupos forneceu as bases para a criação do reino do Marrocos, com a fundação de Marrakech, em 1072.
Nas montanhas do Atlas, Ibn Tumart iniciou um movimento religioso e, ao agrupar seus partidários contra os almorávidas, organizou a luta armada para conseguir dominar o Maghreb. Sob o comando de Abd al-Mumin, os almôadas apoderaram-se de Marrakech e estenderam seu domínio a toda a região berbere e andaluza.
Abd al-Mumin proclamou-se califa –- o que não se atreveram a fazer os almorávidas – de modo a reconstituir uma comunidade religiosa com grande organização política.
O califado desapareceu em meados do século XIII com o surgimento dos reinos de Túnis, Tlemcen e Fez. A derrota imposta pelos cristãos espanhóis sobre os almôadas, na batalha de Las Navas de Tolosa (1212), acelerou o processo interno de desmembramento.
No princípio do século XV, os cristãos atravessaram o estreito de Gibraltar.

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Os portugueses estabeleceram-se em Marrocos, e o exército do imperador Carlos V chegou a Túnis. Ao mesmo tempo, ocorria uma retirada cristã no Oriente, em virtude da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, em 1453, e sua posterior expansão pelos Balcãs.
IMPÉRIO OTOMANO E A ORIGEM ISLÂMICO MODERNO
Seis séculos durou o império otomano, que representou o estado muçulmano mais importante da era moderna. Os otomanos, originários do noroeste de Anatólia, estenderam seu poder até a Europa, dos Balcãs à Síria, Egito e Iraque. A partir do século XVIII, sua decadência começou a se manifestar, apesar de tentativas isoladas de revitalizar o império, cada vez mais debilitado.
As regiões européias sob domínio otomano foram se tornando independentes:
Grécia, Sérvia, Bulgária etc.
O Egito libertou-se também e, sob o comando de Mohamed Ali, reorganizou sua estrutura administrativa em moldes ocidentais; o país obteve a independência com o apoio britânico e conquistou o Sudão. Mesmo assim, a abertura do canal de Suez limitou essa independência, devido ao interesse das potências européias pela atividade comercial naquela região.
A França conquistou a Argélia e estabeleceu um protetorado em Túnis.
A Itália conquistou a Tripolitânia.
As províncias orientais do império otomano desmembraram-se.
A Índia, parcialmente islamizada, foi dominada pelo Reino Unido no século XIX, e o Irã sofreu invasões de russos e britânicos.
Após a primeira guerra mundial, os nacionalismos islâmicos se acentuaram.
A Turquia passou por profunda transformação, convertendo-se em república laica.
O Egito deixou a condição de protetorado britânico em 1922 e, ao longo do século XX, muitos outros estados surgiram no mundo islâmico.
A abundância de petróleo em diversos países árabes reforçou o papel da civilização islâmica no mundo, sobretudo a partir da segunda metade do século XX.
A descolonização da Síria, Líbano e de várias nações do norte da África, além da oposição dos países árabes à criação do Estado de Israel na Palestina, contribuíram para desenvolver a solidariedade do mundo islâmico. Assim mesmo, a unidade panislâmica encontrou obstáculos na consolidação de nacionalismos locais e na permanência de choques entre xiitas e sunitas.
O ISLAMISMO NO CONTINENTE AFRICANO
Depois do Oriente Médio, do subcontinente indiano e do sudeste asiático, a África se constitui numa quarta região que, apesar de menos importante no passado muçulmano, vem adquirindo cada vez mais relevância no contexto do chamado mundo islâmico.
O número de muçulmanos na África é na atualidade estimado em mais de 300 milhões, cerca de 27% do total dos seguidores da religião criada pelo profeta Maomé.
A islamização no continente africano se difundiu muito mais pelo comércio e pela migração do que por conquista militar. A expansão do islã na África seguiu três direções: do noroeste do continente (região do Magreb), ela avançou pelo Saara e alcançou a África Ocidental.
A segunda direção foi aquela que, partindo do baixo para o alto vale do Nilo, chegou ao nordeste da África (península da Somália e arredores). Por fim, comerciantes originários da porção sul-sudoeste da Península Arábica e imigrantes do subcontinente indiano, criaram assentamentos no litoral do Índico e, dali, difundiram a presença muçulmana para o interior.
O islamismo fez sua entrada no continente a partir da África do Norte, do Egito ao Marrocos, sendo uma das primeiras regiões a ser conquistadas pela expansão inicial árabe-islâmica (séculos VII e VIII). Dos séculos X a XVI, mercadores muçulmanos contribuíram para o surgimento de importantes reinos na África Ocidental, que floresceram graças ao comércio feito por caravanas que, atravessando o Saara, punham em contato o mundo mediterrâneo ao das estepes e savanas do Sudão Ocidental e África centro-ocidental.
A conversão de certos monarcas africanos fez não só o islã avançar como criou uma florescente cultura. Assim, cidade de Tumbuktu (no atual Máli) era, no século XIV, um núcleo urbano conhecidopelo alto nível de suas escolas islâmicas, que atraíam muçulmanos de várias partes do mundo.Na porção oriental do continente, comerciantes árabes conseguiram se fixar junto ao litoral do Índico, levando a gradual conversão de grupos africanos que viviam em áreas da atual Eritréia e do leste da Etiópia.
Todavia, os reinos cristãos do alto vale do Nilo conseguiram bloquear por séculos o avanço muçulmano, como foi o caso dos grupos etíopes, ocupantes dos altos planaltos da Etiópia.

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Nos séculos seguintes, a cultura árabe-muçulmana influenciaria grupos bantos que estavam em processo de expansão para a África oriental e meridional.
Paralelamente, comerciantes árabes cruzaram o Oceano Índico e criaram, do Chifre da África ao atual Moçambique, um conjunto de importantes cidades-Estado e fortalezas, junto ao litoral e nas ilhas, cujo comércio de ouro se manteve até o início da presença portuguesa no século XVI. Às vésperas do início da colonização européia, o islã se constituía na principal presença "importada" no continente, presença esta que já estava fortemente integrada às sociedades africanas.
O ISLÃO NA ÁFRICA APÓS 1800
Uma nova fase da islamização no continente iniciou-se no século XVIII, fenômeno que coincidiu com o auge da época escravista.
Embora a servidão já existisse em várias sociedades da África Ocidental, a captura de seres humanos acelerou, a ponto de surgirem, no litoral do Golfo da Guiné, novos "Estados", como o Daomé (atual Benin) e Ashanti (atual Gana), como resposta à crescente procura por escravos que eram enviados, em sua maioria, para servir como mão-de-obra nas plantations da América tropical.As armas de fogo que os mercadores de escravos ganhavam em troca dos seres humanos apresados facilitavam novas capturas que contribuíram para dizimar populações inteiras.
Ao mesmo tempo, esse perverso processo transformou os grupos caçadores e mercadores em uma nova elite. Parte dos escravos vendidos eram muçulmanos e foi através deles que surgiram os primeiros núcleos islâmicos nas Américas. Na África Oriental, os escravos capturados eram, em sua maioria, “direcionados” para o Oriente Médio.
No século XIX, o impacto colonial mudou profundamente o quadro existente até então.
Colonialistas europeus - franceses e britânicos, além de belgas, italianos e portugueses
– criaram e consolidaram impérios concorrentes que puseram fim aos "Estados" islâmicos independentes.Os ingleses, que até o século anterior haviam sido os principais organizadores do tráfico negreiro, passaram a impor o seu fim e, onde foi possível, aboliram a escravidão.
A diminuição do comércio de escravos trouxe conseqüências negativas para as elites escravistas muçulmanas, desestruturando as estruturas estatais existentes.
A Grã Bretanha concentrou suas energias colonizadoras no projeto geopolítico de manter um domínio territorial contínuo, "do Cairo (Egito) até a cidade do Cabo (África do Sul)", eliminando eventuais "Estados" muçulmanos que estavam no caminho.
Por outro lado, em algumas áreas da África Oriental, os britânicos promoveram a vinda de trabalhadores rurais muçulmanos originários das Índias britânicas para regiões das atuais Uganda e África do Sul. A evolução do colonialismo nas regiões da África muçulmana, gerou uma situação paradoxal: ao mesmo tempo em que os muçulmanos perdiam poder político, o islamismo teve um crescimento sem precedentes.
Tribos inteiras se converteram. Isso ocorreu no contexto das rápidas transformações socioeconômicas engendradas pela colonização.
A urbanização e o enfraquecimento das tradições familiares e sociais, bases fundamentais das culturas africanas, geraram um ambiente conturbado que beneficiou o islã, religião que combina o universalismo de sua mensagem com uma ideologia de clara oposição ao Ocidente imperialista.
Aliás, é essa combinação que explica, em grande medida, a condição do islamismo ser, na atualidade, a religião com o maior ritmo de crescimento em todo o mundo.
A ARTE ÀRABE E A TEOLOGIA ISLÃMICA
• Aida Rámeza Hanania
Quando nos referimos à Arte Árabe, referimo-nos também à arte islâmica, à qual está intimamente vinculada e com a qual, em boa medida, se confunde.
Isto porque o conjunto de características que a definem vai-se delineando paralelamente à formação da civilização muçulmana, que decorre do movimento expansionista árabe, com o advento do Islão no século VII. A reflexão sobre qualquer segmento de Cultura Árabe impõe, necessariamente, a consideração de algumas peculiaridades de ordem espácio-temporal, fundamentais à sua conceituação sob quaisquer pontos de vista.
Tendo início em 622, a formação da almejada "nação árabe" adquiriu seus contornos maiores com a chegada dos muçulmanos à Península Ibérica em 711.
O processo de implantação da língua árabe e da religião islâmica (implicando, naturalmente, o enraizamento cultural árabe) gerou uma realidade bastante complexa, determinada basicamente pela união de várias etnias, culturas e filosofias sob a égide do Islão.
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Na verdade, o grau de islamização de cada região, país ou grupo social foi extremamente diversificado, não só porque o momento histórico em que ocorreu era outro, mas – e sobretudo – em virtude do maior ou menor arraigamento das populações conquistadas a seus valores originais. Para exemplo, tomemos a Pérsia, à época da arabização, região das mais florescentes sob todos os aspectos, que manteve, com a incorporação dos valores árabes islâmicos, muita autonomia na condução de seu desenvolvimento cultural.
Pelas mesmas razões, foi análogo o caso da antiga Síria, acrescendo-se o fato de que parte de sua população cristã resistiu à islamização, chegando a preservar – principalmente através da região libanesa – um importante núcleo cristão no Oriente Médio e grande liberdade na determinação dos rumos de sua vida administrativa.
• Tenho a religião do amor, para onde se dirigem seus caravaneiros,
pois o amoré minha religião e minha fé (Ibn Arabi).
Apegados de modo intenso a sua condição de povo de "amazigh" (homem livre), os berberes, instalados ainda hoje na região do Maghreb, islamizaram-se apenas no século XI, mesmo assim guardando respeito por tradições ancestrais e usando, ao lado do árabe, sua língua berbere original.É interessante notar que a ordem instaurada pelo Islão, ao longo de oito séculos, pôde, em certo momento, aproximar mais culturalmente a Andaluzia do Egito que do Norte da Espanha.
A propósito, observa O. Grabar:
"No ano 700 de nossa era, é provável que Córdoba e Samarcanda não tivessem conhecimento uma da outra; em 800, faziam parte do mesmo mundo, o que não mais era válido em 1200. Na mesma época, Granada fazia parte da civilização de Samarcanda, mas não mais da de Córdoba.
Em 1450, Constantinopla era ainda um bastião da arte bizantina cristã, mas, em 1500, sua produção artística poderia se comparar à de Delhi ou Marrakesh" (1)
Essa desigualdade, manifesta tanto em dimensão histórico-geográfica quanto sócio-cultural, por certo repercutiu no modo de expressão artística, levando à coexistência de posturas, mais ou menos rigorosas no que toca à relação da doutrina islâmica com as culturas pré-existentes nos contextos que se iam arabizando.
• !DIZE O BEM OU SENÃO CALA-TE
Ainda que rápida, uma incursão no domínio da Arte Árabe, a partir de suas origens, revela-nos uma produção tão rica quanto variada no que se refere à Caligrafia, ao Arabesco, à Arquitetura, à Música... para citar as artes mais proeminentes.
Quando nos detemos nas características mais presentes, nas peculiaridades que configuram a Arte Árabe, para além da adoção de traços ou o amalgamento de traços adquiridos pelos caminhos trilhados pela Civilização Árabe, constatamos de imediato a sensível ausência da imagem na obra de artistas muçulmanos, bem como a fascinação por uma forma decorativa não-figurativa. A ausência da imagem trouxe à discussão uma das questões mais significativas, envolvendo a atitude do Islão com relação às artes.
A polêmica estabelece-se, basicamente, a partir da dúvida com referência ao fato de a religião muçulmana condenar ou não a representação de seres animados no plano teológico.Quando se analisa o texto alcorânico, verifica-se que nele não há interdição alguma ao figurativismo ou à arte em geral. A condenação alcorânica existe, sim, na direção da idolatria, uma vez que "será proscrito todo objeto de arte que se torne cultuado".Recorrendo-se, entretanto, aos hadiths (2), verifica-se que em suas declarações está contida a hostilidade à arte em geral e, particularmente, ao figurativismo. Verifica-se ainda, que a condenação surge com mais veemência contra o artista do que contra sua obra, conforme explicita um de seus mais reconhecidos aforismos:
"Os artistas que fazem imagens serão punidos no dia do juízo por um julgamento de Deus que lhes imporá a impossível tarefa de ressuscitar suas obras".
Porém, muito embora as afirmações contidas nos hadiths adquiram um valor quase canônico, não têm elas a força indiscutível das leis do Alcorão.
Outra razão implícita da condenação do artista e da imagem que produz escuda-se no fato de que a mensagem teológica central do Alcorão consiste em afirmar a unicidade e o total poder de Deus.
A relação dos Atributos de Deus (Asma`Allah al-Husna) aponta-nos que um dos qualificativos do Criador é Al-Mussawwir (o criador de formas), o mesmo termo utilizado para pintor.
A partir daí, todo artista seria um rival de Deus no exercício de Suas atribuições principais.
A amplitude da questão da imagem tem convocado figuras eminentes do mundo islâmico, dentre elas, a de Algazali, em sua obra Ihya ulum Al-din (Vivificação das ciências da religião), em que, ao enumerar o cortejo de vícios que acompanha os banhos bizantinos situa, em primeiro lugar
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, "os afrescos, representando seres humanos e animais", não tolerando senão "os que representam árvores, isto é, seres inanimados"(3).À medida que o Islão se expandia;
à medida que, cada vez mais, distanciava-se do universo idólatra que o antecedera;
à medida que se intensificava o contato com a arte dos conquistados, foram sendo reproduzidas realidades inanimadas, como árvores, flores, conjuntos arquitetônicos...
Lentamente, tomou lugar a representação de seres vivos: animais, de início, e, mais tarde, esparsamente, a figura humana. A importante arte figurativa árabe muçulmana será a iluminura, miniatura árabe desenvolvida por influência persa.
Entretanto, embora presente de alguma forma ao longo da história, o percurso da arte figurativa árabe nunca foi tranqüilo: pairou sempre sobre a mão do artista – ainda que de modo não canonicamente explícito – o desprezo pela imagem. A esse respeito, Ibn Rashek afirmou que "os árabes reservaram para si a arte do verbo", sobrelevando a produção do espírito e o caráter essencialista da expressão humana. Verbo que, porém, se transformou em arte.
O árabe substituiu a imagem pelo signo, voltando-se para o abstracionismo.
A escrita tornou-se o veículo principal da simbologia islâmica. Signos e símbolos são a matéria privilegiada do pintor espiritualista, e este é exatamente o caso do árabe, que se expressa na arte caligráfica. Se, para o muçulmano, de início, a tendência para o abstracionismo pôde confundir-se com a transgressão sutil de uma proibição, não tardou a identificar-se inteiramente com ela, a ponto de a crítica realizada no mundo islâmico considerar quase que exclusivamente a arte em sua forma abstrata. Se o figurativismo se associava, de certa forma, à degradação da arte, a arte da Caligrafia estava associada à elevação, à ascese.
Ligada à palavra divina, pôs-se à serviço da fé e da beleza. Tornou-se símbolo religioso.
Pertinente, aqui, a palavra de Jamil Almansur Haddad:
"O Alcorão pôde dizer que Deus ama a inteligência e ama a Beleza, e, segundo Schuon, o mundo é cheio de sinais, de ayat, que são símbolos elementares de música congelada"(4).
E, retomando o calígrafo Massoudy: "Nos edifícios religiosos, a caligrafia se desenvolve como uma obra musical. Ela é espantosa. Só um olhar mais aplicado permite tomar consciência do ritmo e da cadência, elementos essenciais"(5) . Ritmo e cadência obtidos pela repetição das letras, das palavras, das frases... Repetição que é marca profunda do Oriente: "A repetição que é a música, a repetição que é o arabesco, as frases que se repetem infinitamente.
Em plano religioso e em plano místico, o dhikr: a repetição ininterrupta, pelos tempos infinitos, do nome de Allah, em que o crente se anestesia apenas com a repetição do nome de Deus, que leva ao êxtase, o que, em definição rápida, é o contato direto, imediato, com Deus, dispensando intermediários"(6) .
A INFLUÊNCIA ÁRABE NA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL
• Porque falar do Mundo Árabe?
O Mundo Árabe é uma região rica em cultura e em tradições, participou muito do desenvolvimento da Europa na Idade Média até o Século XV e também influenciou indiretamente a América Latina através das culturas portuguesa e espanhola, que se espalharam nesta parte do mundo.O Mundo Árabe é hoje um conjunto de países, da Península Arábica, do Oriente Médio e do norte da África.
Os legítimos árabes são da Península Arábica. Os países do Oriente Médio descendentes dos povos cananeu e fenício, que se misturaram com os árabes. Os países do norte da África tem mais a influência africana com os povos berberes, originários da região. Todos esses países têm a língua árabe clássica em comum e fazem parte da Liga dos Países Árabes, cuja sede é no Egito.
Foi na Península Arábica que surgiu a religião muçulmana, no Século VII. Essa área era conhecida como um deserto habitado por beduínos.
Quando falamos do Islã, não devemos nos esquecer que há também cristãos em países árabes, como a Síria, o Líbano, o Egito, o Iraque, sendo que neles os islâmicos são a maioria.
Na cidade de Meca, hoje um lugar de peregrinação dos muçulmanos, havia uma divindade chamada Alá, que não era a única cultuada ali.
• CONTRIBUIÇÕES FEITAS AO OCIDENTE
Os portais das instituições educativas da Espanha muçulmana, à partir do Século VIII, ostentavam a famosa inscrição:
“O mundo é sustentado por quatro coisas apenas: a sabedoria do sábio, a justiça do grande,
as preces do justo e a coragem do bravo”.

É significativo que a sabedoria venha em primeiro lugar nesta declaração européia dos ideais muçulmanos.A sabedoria muçulmana penetrou no pensamento europeu.
A Espanha maometana escreveu um dos capítulos mais brilhantes na história intelectual da Europa Medieval. Entre a metade do Século VIII e o início do Século XIII, os povos que falavam árabe eram, por todo o mundo, os principais portadores da tocha da cultura e da civilização.
Os agentes da ciência e da filosofia antigas, que foram por eles recobradas, desenvolvidas e transmitidas, possibilitando assim o Renascimento na Europa ocidental.
Os árabes marcaram a Espanha na poesia, na literatura, na música, na arquitetura, nas ciências, na astronomia e na medicina. Várias das cidades espanholas possuíam o que podiam ser chamadas de universidades, das quais as principais eram as de Córdoba, Sevilha, Málaga e Granada. Ao lado das universidades floresceram as bibliotecas.
Este acúmulo de livros na Andaluzia (Espanha) não teria sido possível se não houvesse a fabricação local de papel de escrever, uma das mais benéficas contribuições do Islã à Europa.
Esta indústria de papel passou à Espanha no Século XII (palha de trigo).
Também um dos termos matemáticos mais interessantes tomados do árabe é o “zero”. Eles ensinaram aos ocidentais o emprego desta tão útil convenção.
• ARQUITETURA
A suprema expressão da arte mulçumana foi a sua arquitetura religiosa, só dois monumentos arquitetônicos das mais nobres estruturas do Islã existem até hoje, que são:
A mesquita Omíada de Damasco e a Cúpula do Rochedo de Jerusalém.
Os arquitetos árabes desenvolveram um plano de construção simples e capaz de expressar o espírito da nova religião.
Assim temos na Mesquita (nome derivado de masjid, que quer dizer um lugar em que se prostra) um epítome da história do desenvolvimento da civilização islamítica nas suas relações interraciais e internacionais.A mesquita simples de Maomé consistia de um pátio descoberto, cercado por paredes de argila endurecida pelo sol.O teto era formado por troncos de palmeiras que eram usados como colunas, as quais sustentavam na cobertura de folhas de palmeira e barro. Um tronco também de palmeira enterrado no solo, no começo servia como o púlpito de onde o profeta se dirigia a congregação. Mais tarde, foi substituído por uma pequena plataforma de madeira com três degraus, copiada das que se vêem nas igrejas cristãs na Síria.
A arquitetura da casa é bem especial. A porta de entrada de cada casa dava da rua, para um pátio, do qual no centro se encontravam um grande tanque de água dotado de um jato fluente que lançava periodicamente um borrifo como se fosse um véu.
Uma laranjeira ou uma cidreira estavam plantadas perto do tanque.
Os quartos rodeavam o pátio , que nas maiores casas eram dotado de um peristilo.
A peça mais importante da mobília do lar passou a ser o divã, um sofá que se estendia ao longo de três lados da sala, com almofadas colocadas sobre colchões.
Os tapetes tecidos a mão são os principais na decoração.
No Século X Bagdá jactava-se de ter cerca de 21.000 casas de banhos públicos, servidos de água corrente quente e fria, os banhos tinham-se tornados populares para homens.
As mulheres usavam os banheiros públicos em dias reservados. Uma tradição profética dizia “A limpeza é uma parte da fé”. A limpeza e as boas maneiras eram coisas importantes numa pessoa.
Um autor árabe do século IX escreveu sobre as maneiras de um homem culto, um cavalheiro daquele período: “Era um homem que se fazia notar pelo comportamento cortês, honra máscula e maneiras elegantes, que se abstinha de gracejar, que era amigo das pessoas bem consideradas dotado de altos padrões de veracidade, escrupuloso no cumprimento de promessas e capaz de guardar segredos que lhe fossem confiados.
Não vestia roupas sujas ou remendadas e ao comer não enchia a boca com alimentos, conversava ou ria pouco, mastigava sua comida devagar, não lambia os dedos, evitava o alho e abstinha-se de palitar os dentes nos toucadores, casas de banho, encontros públicos ou nas ruas.” Na arte, os teólogos mulçumanos eram hostis a todas as formas de arte representativa, proibidas pelo Alcorão. No Islã, a pintura pôs-se a serviço da religião.
A pintura mulçumana de caráter religioso só aparece realmente nos princípios do século XIV, influenciada pela arte das igrejas cristãs orientais, como base de seu desenvolvimento a decoração de livros.
A arte de tecer tapetes, que é muito velha, desenvolvem-se de maneira especial.
Cenas de caça e de jardins eram as favoritas para os desenhos nos tapetes.
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Os caracteres do alfabeto arábico prestavam-se aos desenhos decorativos e passaram a ser um importante motivo na arte islamítica. A caligrafia seja talvez a única arte árabe que se tem atualmente representantes cristãos e mulçumanos em Constantinopla, Cairo, Beirute e Damasco.
E suas produções excedem em elegância e beleza a qualquer das obras primas que os antigos produziram.Um ditado antigo mostra a importância da língua escrita e falada para os povos árabes: “A sabedoria desceu a três coisas
, O cérebro dos francos (europeus),
as mãos dos chineses
e a língua dos árabes.”

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