sábado, 7 de novembro de 2009

CAPITULO 25 ROMA EM GUERRA

CAPITULO 25

ROMA EM GUERRA
O legionário romano (miles), um dos grandes protagonistas da história de Roma, era, de modo geral, um camponês habituado às longas caminhadas e às vicissitudes da vida rural.
O equipamento que transportava às costas pesava de 35 a 40 kg. Em condições normais, andava 30 km por dia, mas, quando necessário, fazia 40 km ou mais, em marcha acelerada.
Ao chegar ao destino, trabalhava ainda quatro ou cinco horas na armação do acampamento.
No equipamento do legionário romano
Entre as armas defensivas contavam-se:
O elmo metálico com protector para nuca e garganta, muitas vezes ornado com penas ou crina de cavalo; O escudo de madeira, revestido de couro e reforçado com ornamentação de metal;
Urna couraça, colocada sobre uma túnica de couro ou uma malha de ferro, e perneiras (armaduras para as pernas). Entre as armas ofensivas: Os pila, dois dardos de madeira com uma das pontas de ferro; o gládio (espada de dois gumes); A espada curta (50 cm em média) E o punhal. A bagagem de cada legionário compreendia:
Víveres e água; colher-gamela e panela para cozinhar seu alimento básico e peles de animais para montar sua tenda; Foice para cortar a vegetação;
Uma pá ou picareta para cavar o fosso e cercar o acampamento com uma protecção de terra.
A LONGA MARCHA
A expansão romana começou efectivamente com a República (509 a.C.) e estendeu-se pelos 350 anos seguintes.A expulsão de Tarquínio Sexto, rei etrusco de Roma, enfraqueceu a cidade e despertou contra ela a hostilidade de outros povos do Lácio. A vulnerabilidade da República recém-formada e suas necessidades agrícolas foram as principais justificativas para as campanhas contra os vizinhos: Os latinos, submetidos a Roma desde o século VIII a.C. e desejosos de recuperar a independência; os volscos, ao sul, e os equos, a leste.
• Entre 499 e 496 a.C. Roma enfrentou os latinos.
A vitória sobre os volscos, em 488 a.C., e sobre os equos, em 457 a.C., fechou o ciclo da conquista do Lácio. Restava a Etrúria, antiga senhora de Roma.
Esse ciclo de campanhas terminou em 396 a.C., com a conquista da cidade de Veios, último grande obstáculo à supremacia de Roma na Toscana.
A CONQUISTA DA ITÁLIA
No início do século IV a.C., os romanos depararam com um inimigo poderoso: os gauleses – celtas da Gália que invadiram a península Itálica e, em 390 a.C., ocuparam Roma.
PAG 230

Três anos depois, os gauleses retiraram-se mediante o pagamento de pesado resgate, fixando-se no vale do Pó. Entre a segunda metade do século IV a.C. e o início do século III a.C., Roma passou a ser ameaçada pelas poderosas tribos samnitas, que habitavam o centro-sul da Itália.
A batalha final ocorreu em 295 a.C., perto de Sentino, nas Marcas
. A vitória assegurou a Roma a posse da fértil planície da Campânia e das regiões da Úmbria, Abruzos e Marcas.A etapa seguinte foi a anexação do sul da Itália, pontilhado, na época, por cidades-Estado gregas. Em 282 a.C., os romanos entraram em guerra contra Tarento, a mais poderosa cidade da região. Os tarentinos pediram auxílio a Pirro, rei do Epiro (noroeste da Grécia), que venceu os romanos em Heradea (280 a.C.) e Asculum (279 a.C.), mas foi derrotado em Benevento (275 a.C.). Com a tomada de Tarento, Roma estendeu seus domínios a toda a península itálica, com excepção do vale do Pó.
Os caminhos da vitória
A boa organização e armamentos eficientes garantiram as sucessivas vitórias das legiões.
A manutenção dos territórios conquistados e a rapidez com que o exército se movia deveram-se, sobretudo, à construção de estradas que ligavam as províncias a Roma.
A expressão "todos os caminhos levam a Roma" era verdadeira; nasceu, provavelmente, quando os romanos descobriram que suas legiões, máquinas de guerra e tropas de reforço deslocavam-se com uma rapidez três vezes maior que a dos inimigos, por estradas pavimentadas, construídas pelos próprios soldados. Além dos objectivos militares, as antigas estradas consulares (assim chamadas porque recebiam o nome do cônsul encarregado de coordenar os trabalhos da sua construção) foram as vias de difusão da civilização romana.
Até hoje representam a espinha dorsal do sistema viário italiano e, em menor escala, de outros países europeus, antigas colónias romanas. De 264 a 146 a.C., os romanos lutaram contra os cartagineses pelo controle do tráfego e do comércio no mar Mediterrâneo.
O longo conflito denominado Guerras Púnicas (púnica vem de poeni, designação latina para os fenícios) terminou com a vitória total de Roma, assegurando-lhe a hegemonia na região do Mediterrâneo e facilitando a conquista da maior parte da Europa.
ROMA E CARTAGO: UM CONFRONTO DECISIVO
A tradição clássica atribui a Dido, filha de um rei de Tiro, a fundação da colónia fenícia de Cartago, por volta do século IX a.C.
Situada na costa norte da África, a colónia recebeu o nome de Kart-hadashi (cidade nova).
Os gregos transformaram esse nome em Karchedon, e os romanos, em Cartago.
Enquanto Tiro, Sidon e outras importantes cidades fenícias localizadas na costa do actual Líbano entravam em decadência, Cartago crescia em poder e esplendor, baseando sua prosperidade no comércio. No século VI a.C. quase toda a costa africana, da Cirenaica a Gibraltar, e a península Ibérica, rica em ouro, prata, ferro e cobre, estavam sob o domínio dos cartagineses. Estes também haviam se apoderado das ilhas Baleares, da Sardenha, da Córsega, de metade da costa oeste da Sicília e de Malta, ilha do Mediterrâneo central.
Cartago impunha aos territórios conquistados o pagamento de grandes tributos anuais, obrigava os vencidos a se alistarem no seu exército e controlava-lhes rigorosamente o comércio exterior.
Em troca, oferecia protecção militar, garantia a independência do governo local e a estabilidade económica. O Comércio e a exploração desse império tornaram Cartago, no século III a.C., o mais rico e poderoso Estado mediterrâneo. As relações entre Roma e Cartago iniciaram-se em 510 a.C., com um tratado pelo qual Roma reconhecia a Cartago o direito de comerciar e piratear em todo o Mediterrâneo ocidental, desde que não invadisse o mar Tirreno ou atacasse qualquer das cidades latinas aliadas aos romanos. Esse tratado foi renovado em 348 a.C., mas, no século seguinte, Roma, senhora da península Itálica, começou a ambicionar a Sicília, que era grande produtora de trigo e ponto estratégico para o controle do tráfego comercial e militar no mar Mediterrâneo.
A GUERRA NO MAR
Na Primeira Guerra Púnica, Roma era uma potência terrestre desafiando Cartago, uma potência marítima. A guerra só poderia ser ganha se Cartago fosse derrotada em seu próprio elemento.
Nos combates navais da época, as embarcações, movidas com a maior velocidade possível por meio de remadores, eram lançadas contra os flancos dos navios adversários.
Como a ponta da quilha era equipada com um esporão metálico, o resultado era um buraco na lateral do navio inimigo, abaixo da linha-d’água, o que causava o seu afundamento.
Os cartagineses pareciam imbatíveis no mar.
PAG 231

Seus remadores eram mais rápidos e os marinheiros podiam frear bruscamente a embarcação, mudar a sua direcção de modo a defendê-la do esporão inimigo e efectuar outras manobras.
Em 241 a.C.:., Roma construiu, em sessenta dias, uma esquadra de duzentos quinqüerremes.
Baseados no modelo cartaginês, mediam 40 m de comprimento e abrigavam uma tripulação de duzentos homens armados. Tinham, porém, uma inovação: o "corvo", espécie de ponte levadiça que caía sobre a nave inimiga, transformando-se numa passarela.
Os soldados podiam, assim, passar ao navio adversário e fazer do combate naval um combate semelhante ao terrestre, no qual eram peritos. Criado pelo cônsul Caio Dílio, o "corvo" assegurou aos romanos a vitória em Melazzo.
• PRIMEIRA GUERRA PÚNICA (264-241 a. C.)
264 A.C. – Os romanos tomam, na Sicília, as cidades gregas aliadas de Cartago. Hierão de Siracusa alia-se a Roma e conquista a Sicília ocidental até Agrigento (261 a.C.).
260 a.C. – A frota romana derrota os cartagineses, chefiados por Aníbal, ao largo de Milazzo.
256 A.C. – Os romanos desembarcam na África, sob o comando de Atílio Régulo.
No entanto, são derrotados pelas tropas cartaginesas chefiadas por Xantipo, mercenário espartano (255 a.C.).
250 A.C. – Roma conquista Panormo (Palerma) e renova aliança com Hierão.
249 A.C. – Alternância de vitórias e derrotas para ambos os lados.
241 A.C. – Roma derrota os cartagineses numa batalha naval realizada junto às Egades, pequenas ilhas situadas a oeste da Sicília.
A paz é assinada. Cartago renuncia à Sicília, que se torna então a primeira província romana.
• Acontecimentos posteriores
229-222 A.C. – Roma ocupa a Iliria (actual Iugoslávia).
Na Itália, derrota os gauleses em Clastidium (Casteggio, Pavia) e ocupa uma de suas capitais: Mediolanum (Milão).
Os romanos fundam, ao norte da Itália, as colónias de Piacenza, Modena e Bolonha.
UM EXÉRCITO INVENCÍVEL
Na primeira fase da Segunda Guerra Púnica o exército romano sofreu severas derrotas.
A partir da batalha de Canas, porém, estabeleceram-se novas regras de táctica e disciplina que o tornaram quase invencível. Curiosamente, muitas das tácticas foram aprendidas dos próprios cartagineses e depois desenvolvidas, com sucesso, por oficiais romanos.
Só em Esparta a disciplina militar foi tão rigorosa quanto no exército romano.
Este era, de início, um exército de camponeses –
Cidadãos que serviam dos 17 aos 45 anos. Dos 45 aos 60 passavam à reserva, mas, frequentemente, eram chamados para guerrear ou formar um corpo de defesa da própria cidade. A importância do serviço militar era tanta que nenhum cidadão podia se candidatar a um cargo público sem ter sido soldado durante pelo menos dez anos.
A LEGIÃO ROMANA
Na época das Guerras Púnicas, a unidade combatente básica – a legião – tinha 4 200 soldados.
Esse número foi depois elevado para 5 000-6 000 soldados (infantes), ao lado de um mínimo de novecentos cavaleiros.Para facilitar as manobras em campo, a legião era subdividida em coortes (em geral, dez) e cada coorte, por sua vez, subdividia-se em mampulos.
O manípulo era dividido em unidades mais ágeis:
as centúrias (a princípio, cem homens e, depois, entre oitenta e 150).
Os centuriões, oficiais que combatiam na extrema direita da primeira fila, lideravam a centúria.
Eram também, em tempo de paz, os treinadores dos jovens romanos, que se adestravam no Campo de Marte, fora dos muros da cidade. Na extremidade aposta da primeira fila, outro oficial, o tesserarius, transmitia ordens a seus homens ou, eventualmente, ao centurião da centúria ao lado. O último lugar à esquerda da última fila era ocupado por outro oficial, que comunicava as ordens provenientes das filas anteriores ou substituía os feridos.
No centro do esquadrão, o aquilifer ou signifer (portador da, águia ou do estandarte da legião) e o arauto, com a tradicional trompa, coordenavam a acção das diversas centúrias, manípulos e cortes, por meio dos movimentos do estandarte ou dos sons da trompa.
A acção das legiões era dirigida pelos tribunos, oficiais superiores, e, sobretudo, pelo cônsul, magistrado eleito a quem cabia o comando supremo e a responsabilidade total da batalha.

PAG 232

SEGUNDA GUERRA PÚNICA
• Antecedentes
237-231 A.C. – Pelo tratado de paz de 241 a.C., os cartagineses ficam obrigados a pagar por dez anos um tributo anual da ordem de 3 200 talentos.
Amílcar Barca conquista territórios na Espanha (237 a.C.), e as minas de Serra Morena permitem o pagamento dos tributos devidos a Roma.
Em 231 a.C. é assinado o Tratado de Ebro, pelo qual os romanos reconhecem o domínio cartaginês ao sul desse rio espanhol.
228-221 A.C. – Morte de Amílcar. Aníbal é o comandante supremo na Espanha.
219 A.C. – Aníbal conquista Sagunto, colónia grega do litoral sul da Espanha, aliada de Roma, o que equivale a uma declaração de guerra.
A GUERRA (218-201 a.C.)
218 A.C. – A fim de surpreender os romanos, que se preparavam para combater na África, Aníbal entra na Itália, pelos Alpes, com 50 000 soldados, 9 000 cavaleiros e 37 elefantes.
Em Trébia, os gauleses do vale do Pó a (iam-se aos cartagineses. 217 a.C.
– Comandados por Caio Flaminio, os romanos são derrotados pelos cartagineses junto ao lago de Trasimeno. Sob o comando de Cornélio Cipião, o Africano, retomam Sagunto na Espanha.
216 A.C. – Esmagados pelos cartagineses em Canas, os romanos perdem 50 000 de seus
80 000 soldados, entre eles o cônsul Paulo Emílio.
215 A.C. – Morte de Hierão de Siracusa. Seu sucessor alia-se a Cartago.
212 A.C. – Tomada de Tarento por Aníbal Barca.
Na Sicília, a frota romana, comandada por Marco António Marcelo, toma Siracusa.
Em Capua os romanos são derrotados por Aníbal.
211 A.C. – Cipião conquista Cartagena. 208 A.C. – Asdrúbal Barca é vencido em Bácula por Cipião.
207 a.C. – Os romanos vencem os cartagineses numa importante batalha perto do rio Metauro (norte da Itália), durante a qual morre Asdrúbal Barca.
204 A.C. – Cipião desembarca na África e recebe apoio de Masinissa, rei da Numidia. Cartago chama Aníbal de volta à África para combater os romanos.
• 202 A.C. – Aníbal é derrotado em Zama, na batalha que põe fim à Segunda Guerra Púnica.
• Acontecimentos posteriores
200-188 A.C. – Combatendo antigos inimigos, aliados de Cartago, as legiões romanas expandem seus domínios pela Itália do norte (190 a.C.), península Ibérica, Grécia e Macedônia (197 a.C.J. Em 196 a.C. Aníbal, eleito magistrado supremo de Cartago, propõe que o mandato dos juízes seja fixado em um ano, a dota medidas para impedir as venalidades e liberta os cidadãos de taxas extras.Os oligarcas denunciam-no a Roma, sob a acusação de planejar o reinício das hostilidades.
Em 195 a.C. Anal al foge para Antioquia, depois para Creta e por fim para a Bitmia, onde se mata (183 a.C.). Em 188 a.C., ao derrotar Antíoco III da Síria, que governava também a Ásia Menor, Roma domina o Mediterrâneo oriental.
"DELENDA CARTHAGO"
Apesar dos duros termos de paz impostos a Cartago ao final da Segunda Guerra Púnica, diariamente, no Senado romano, Catão erguia sua voz; sempre terminava seus discursos com a expressão Delenda Carthago ("Cartago deve ser destruída").
Era necessária, a qualquer preço, uma Terceira Guerra Púnica.
• O pretexto surgiu em 149 a.C., e por três anos Cartago suportou o sítio por terra e por mar.
Mas, em 147 a.C., o Senado e as Assembleias nomearam cônsul Cornélio Cipião Emiliano – que passaria à história como "o Africano Menor" –, o qual, no ano seguinte, logrou escalar as muralhas e penetrar na cidade, seguido por suas legiões. Embora enfraquecidos e dizimados pela fome, os cartagineses lutaram palmo a palmo por seis dias. Hostilizado pelos guerrilheiros ocultos nas casas, Cipião ordenou que as residências fossem queimadas. Por fim, reduzida de 500 000 a 50 000, a população se rendeu. Os sobreviventes foram vendidos como escravos e o que restava, saqueado. Relutando em arrasá-la, Cipião pediu instruções ao Senado.
A resposta não se fez esperar: não apenas Cartago, mas também seus arredores deviam ser destruídos, e o solo arado e salgado para que nada mais pudesse ali vicejar; e maldito fosse o homem que tentasse construir naquele sítio.
Durante dezes sete dias Cartago esteve em chamas. Depois, desapareceu.
PAG 233

TERCEIRA GUERRA PÚNICA (149-146 a.C.)
• Antecedentes
A paz, assinada em 201 a.C., impõe a Cartago desarmamento naval e terrestre, pesadas indemnizações, renúncia a todas as possessões e perda de política independente.
Além disso, Roma incita alguns de seus aliados africanos a guerrilhas contra Cartago e espera um pretexto para a completa destruição de sua rival.Este surge em 151 a.C., quando Masinissa, rei da Numidia, aliada de Roma, pretende apoderar-se das costas da actual Tripolitânia, pertencentes a Cartago. Os cartagineses declaram guerra à Numidia (151-150 a. C.).
149 A.C. – O Senado romano alega que Cartago violara o tratado de paz e declara-lhe guerra.
Os cartagineses concordam em entregar todas as suas armas aos romanos, mas, quando estes ordenam que eles se retirem da cidade, resolvem oferecer-lhes resistência.
146 A.C. – Cartago é destruída. Seu território torna-se então a província romana da África.
Transformada em província romana, a região foi dividida em latifúndios e distribuída entre os romanos como parte da ager publicus (domínios do Estado), ao mesmo tempo que os moradores entravam na herança do outrora próspero comércio cartaginês. Apesar das maldições, em 122 a.C., o Senado romano ordenou que se fundasse uma colónia no sítio de Cartago.
A tentativa não deu resultado. Mais tarde, porém, Júlio César enviou para lá numerosos colonos romanos sem terra e, em 29 a.C.,
Augusto centralizou a administração romana da África naquele sítio. Nessa época;a, a colónia, conhecida como Júlia Cartago, prosperou a ponto de rivalizar com a cidade egípcia de Alexandria.
A RESISTÊNCIA LUSITANA
Depois da expulsão dos cartagineses, os romanos tornaram-se senhores da península Ibérica.
Esta foi dividida em duas províncias – Espanha ulterior (sul) e citerior (norte) –, obrigadas a pagar tributos em produtos agrícolas e minérios.
As rebeliões contra os romanos tiveram início em 199 a.C. Em 179 a.C. Tibério Semprônio Graco conseguiu pacificar a região. Mas, a partir de 154 a.C., os lusitanos, um povo que vivia a noroeste da península (em território que actualmente esta dividido entre Portugal e Espanha), fizeram várias incursões contra cidades aliadas de Roma. Graças à habilidade do seu chefe, Viriato, que desenvolveu uma eficiente táctica de guerrilha, resistiram ate 139 a. C., quando Viriato foi assassinado por três colaboradores subornados pelos romanos.
A resistência lusitana, entretanto, encorajou os celtiberos à rebelião contra Roma (143 a.C.).
A destruição de Numância (133 a. C.) marcou a pacificação da península.
• OS DOMÍNIOS DE ROMA
As regiões submetidas a Roma recebiam tratamento diferenciado conforme as circunstâncias.
Algumas eram escolhidas em termos de aliança ou de Estados federados, devendo pagar um tributo e manter uma guarnição romana "para protecção", mas com a vantagem de poderem conservar suas leis e seu sistema de governo.
Outras obtinham mais vantagens: Seus habitantes podiam tornar-se eives romani, ou seja, ganhavam direito à cidadania romana. Em outros casos, os territórios conquistados eram mantidos sob a administração directa de Roma, com governadores locais.
Eram as províncias.
As primeiras foram: a Sicília, a Sardenha-Córsega, a Espanha, a África cartaginesa e a Grécia.
• O preço do "mare nostrum"
As Guerras Púnicas foram o mais caro empreendimento bélico da Antiguidade.
Arruinaram centenas de cidades e mataram centenas de milhares de pessoas:
Somente a Segunda Guerra Púnica vitimou 300 000 homens.
Mas esse evento representou também um divisor de águas na história romana.
Os minérios ibéricos deram novo impulso à expansão imperialista.
O saque às províncias, as indemnizações pagas pelos cartagineses e, depois, pela Macedônia e Síria, os escravos que de toda parte afluíam a Roma, os metais preciosos das regiões conquistadas e outros golpes favoráveis transformaram os ricos de Roma em opulentos magnatas As Guerras Púnicas mudaram a face do Mediterrâneo, tornando-o um lago romano –
Os mare nostrum, como o chamavam os romanos;
a prosperidade mudou a fisionomia da sociedade romana.
A possibilidade de importar toda sorte de produtos, a baixo custo, das províncias provocou a decadência da agricultura e indústria romanas.
PAG 234

Em contrapartida, o comércio e os bancos floresceram.
Roma tornava dinheiro do mundo para, com ele, adquirir os produtos do mundo.
Como resultado, o patriciado e a classe média da República romana trocaram sua austera simplicidade por um luxo ostensivo e ocioso.
• FIM DA REPÚBLICA ROMANA
Após oitenta anos de guerras, lutas, sacrifícios e privações, os romanos se deram conta de que tinham o mundo nas mãos.
Entre os bens obtidos estava a cultura grega, difundida por uma região imensa que passara a pertencer a Roma: Sicília, sul da Itália, Ásia Menor e a própria Grécia, anexada no século II a.C. Os gregos revidaram a conquista introduzindo em Roma sua filosofia, sua arte, seu teatro e até sua religião.Para os velhos isso era uma verdadeira afronta, pois essas contribuições, aliadas ao luxo e à vida faustosa, solapavam o carácter simples e austero dos romanos.
Mas, como disse Horácio, Graecia capta victorem cepit ("a Grécia conquistada conquistou por sua vez o vencedor"). Antes das Guerras Púnicas a família romana era um microcosmo, o centro gerador da religião, da moral, da economia e do próprio Estado. Cada aspecto da sua existência, material ou espiritual, estava em solene intimidade com o panteão doméstico:
A casa era regida pela deusa Vesta, presente no fogo da lareira, chama que simbolizava a vida e a continuidade da família; os deuses Lares guardavam os campos e as construções;
Os Penates, ou deuses do interior da casa, garantiam a abundância; e a matrona romana era portadora de uma centelha da divindade de Juno, pois tinha dentro de si o genius da capacidade de gerar Eram dezenas de divindades laboriosas, presidindo as actividades da família.
Esta, por sua vez, compunha-se do pai e da mãe, da casa, da terra e das propriedades dos filhos solteiros ou casados, dos netos, das noras, dos escravos e agregados.
Era, portanto, uma assembleia de pessoas e coisas governadas pelo ascendente mais velho (patriarca). Dentro desse pequeno mundo, que continha em si as funções da família, igreja, escola, indústria e Estado, forjaram-se os vencedores dos cartagineses.
Um romano como Catão, que nasceu por volta de 230 a.C. e morreu em cerca de 150 a.C., pôde assistir à transformação dos hábitos de vida dos romanos. A mudança manifestava-se em todos os estores: começava pelo cardápio e culminava com a adopção dos sofisticados deuses gregos, relegando a segundo plano o doméstico panteão romano.
UMA NOVA SOCIEDADE
A afluência de enormes riquezas a Roma beneficiou sobretudo os patrícios e a nobreza senatorial.
As terras conquistadas que se transformavam em ager publicus (terras do Estado), na realidade ficavam quase sempre em suas mãos – Ou como recompensa por serviços prestados na guerra, ou porque esses estores sociais eram os únicos com dinheiro para comprá-las quando o Estado as leiloava. Os camponeses pouco se beneficiaram com as vitórias, excerto aqueles que receberam uma gleba nas terras conquistadas
. E os soldados, ao voltar a suas terras, tiveram uma surpresa desagradável:
Roma passara a consumir o trigo barato vindo das províncias, e nas grandes propriedades o trabalho mobilizava a mão-de-obra escrava, constituída de prisioneiros.
Sem condições de colocar sua colheita no mercado a preços competitivos e sem emprego, o camponês acabava por vender sua gleba (ou a entregava para saldar dívidas) e ia para Roma engrossar o contingente de desocupados Foi a essa massa desapropriada pelos frutos das vitórias romanas que se ofereceu panem et circenses (pão e circo).
Os ricos
Para Catão, a cultura grega representava uma total subversão da ordem familiar e, consequentemente, da religião e do Estado.
São de sua autoria algumas leis que limitavam as despesas em banquetes e vestuário.
Mas de pouco adiantaram. Os bons cozinheiros continuaram a ser comprados a peso de ouro no mercado de escravos; as baixelas eram de ouro, as mulheres cobriam-se de jóias e tecidos finos e os cosméticos tornaram-se uma necessidade.
À medida que as maneiras dos patrícios e equites (cavaleiros) se refinavam, a moral se afrouxava. O divórcio tornou-se corrente e a aura sagrada que envolvia a "família" se desfez.
Nem Catão nem ninguém poderia impedir a "nova moralidade" ditada pela opulência e pelo individualismo.

PAG 235

Os pobres
Desde o início da República, muitos plebeus viviam agregados às famílias patrícias como clientes: Recebiam alimentos e roupas em troca de pequenos serviços e do compromisso de votar a favor de seus protectores nas assembleias. A partir do século II a.C., pode-se dizer que toda a massa de plebeus residentes em Roma constituiu uma espécie de clientela.
Eram cidadãos, e portanto podiam votar nas Assembleias das Tribos, onde eram eleitos os questores e edis da plebe e aprovada a maioria das leis.
Essa prerrogativa transformou os pobres em massa de manobra dos políticos e dos pretendentes a cargos políticos, empenhados em conquistar o apoio eleitoral em troca de trigo, festas e jogos.
Roma criava, assim, um esquema demagógico de controlo social.
O pão e o circo reduziam a população empobrecida à condição de parasita e afastavam os riscos de conflitos e revoltas.
A QUESTÃO AGRÁRIA
Duas forças políticas digladiaram-se durante a República:
De um lado, os patrícios e a nobilitas (nobreza, classe que incluía os plebeus ricos que haviam ocupado altas magistraturas, o que lhes dava acesso ao Senado), integrados num partido aristocrático ou "senatorial";
De outro, os equites e os populares, que constituíam um partido democrático.
Ao longo da luta entre as duas facções, porém, muitos patrícios tornaram o partido da plebe e vice-versa. Foi o que se deu com a família patrícia dos Graco
Os irmãos Graco
• Tibério e Caio Graco pertenciam a uma das mais prestigiadas famílias patrícias.
Eram filhos de Semprônio Graco, comandante na Espanha, e de Cornélia, filha de Cipião, o Africano.
Vendo o estado de abandono das terras da Etrúria e a decadência do exército romano, Tibério achou necessário repovoar os campos para favorecer a formação de um campesinato forte.
Na verdade, os agricultores – Dado seu empobrecimento e consequente falta de condições para se armar à própria custa – Tinham sido privados de se integrarem ao exército.
Ao ser eleito tribuno da plebe, em 133 a.C., Tibério Graco propôs o revigoramento da lei que impunha a devolução ao Estado das terras públicas, então em poder da aristocracia, e sua distribuição entre os cidadãos pobres.
Com isso, pretendia resolver graves problemas interligados: Excesso de escravos no campo, superpopulação e corrupção urbanas e decadência militar de Roma.
A sugestão despertou forte relação do partido senatorial, representante dos interesses dos grandes proprietários. No final do ano, ao tentar se reeleger, Tibério foi trucidado por seus adversários junto com trejeitos adeptos.
• Em 123 a.C., seu irmão Caio Graco retomou esse programa.
Além de revigorar a lei agrária, propôs o fornecimento de roupas e armas aos cidadãos pobres à custa do Estado; A realização de obras públicas, que proporcionassem emprego a milhares de desocupados, e a lei do trigo, que autorizava o governo a distribuir o cereal pela metade do preço de mercado.
Essa lei fez com que as massas pobres deixassem de ser clientes da aristocracia para se tornar defensoras dos Graco e de seus sucessores do partido popular, entre os quais Júlio César.
A reacção oligárquica
Entre as propostas de Caio Graco figurava, ainda, a concessão da cidadania romana aos povos itálicos aliados (socii) de Roma, para que se beneficiassem da distribuição de terras; e a participação dos equites na colecta de impostos nas províncias e, como jurados, nos julgamentos de crimes de apropriação indébita que envolvessem funcionários públicos (tarefa que competia ao Senado). Prejudicados em seus interesses políticos e económicos, os nobres passaram a considerar as leis agrária e judiciária uma afronta ao poder senatorial.
Induzido por demagogos, o povo romano foi convencido de que sua participação em festas e jogos seria cada vez mais limitada se os socii obtivessem regalias reservadas aos cidadãos.
As leis de cidadania foram rejeitadas pelo Senado e, em 121 a.C., as tropas chefiadas pelo cônsul Lúcio Opímio tornaram de assalto o monte Aventino, onde os democráticos estavam entrincheirados. Caio Graco, para não se entregar, preferiu o suicídio.
PAG 236

Três mil de seus seguidores foram executados sem processo algum.Vitoriosos, os oligarcas anularam a reforma agrária, mas não conseguiram evitar os frutos de algumas medidas dos Graco.
Os equites e o povo tinham tomado consciência de sua força política.
A CRISE DA DEMOCRACIA
No fim do século II a.C., havia só 2 000 proprietários para 400 000 cidadãos romanos.
A pobreza fazia diminuir o número de soldados Não tardou que Roma fosse atacada.
Em 113 a.C., os cimbros e os teutões invadiram a Itália com 300 000 homens.
Quase simultaneamente irrompeu o conflito do reino da Numídia: Jugurta combateu e derrotou seus primos Aderbal e Hiempsal, com quem dividia o trono, e dominou o país inteiro.
Como no episódio morreram também mercadores romanos, em 111 a.C. Roma declarou-lhe guerra. Jugurta, porém, subornou os generais romanos, tirando partido da incompetência e da corrupção. Em 108 a.C. Caio Mário, filho de camponeses, que servira na Numídia sob as ordens de Quinto Metelo, candidatou-se ao consulado, oferecendo-se para derrotar Jugurta.
Essa promessa foi cumprida em 106 a.C.; Em 104 a.C. Mário foi reeleito cônsul; em 102 a.C. derrotou os teutões E em 101 a.C., os cimbros. Esse sucesso devia-se a um novo tipo de exército, resultado da reforma que Mário fizera no recrutamento militar, possibilitando o alistamento de cidadãos sem recursos. O exército assim forcado compunha-se basicamente de proletários urbanos, que não lutavam pelo seu pais, mas pelo seu general.
O fantasma dos Graco
Em 100 a.C. Mário foi eleito cônsul pela sexta vez junto com Lúcio Saturnino, que, ao se declarar disposto a realizar o programa dos Graco, foi assassinado.
Mas em 91 a.C. a "guerra social" (dos socii contra Roma) retomou um tema defendido pelos Graco: A concessão de cidadania aos povos itálicos.
A guerra durou dois anos e terminou com os socii recebendo uma cidadania de segunda classe:
Divididos em dez tribos, só podiam votar depois de as 35 tribos romanas terem votado.
A HORA E VEZ DOS GENERAIS
Em 88 a.C. começou a guerra contra Mitrídates, rei do Ponto, que pretendia estender seus domínios às possessões romanas da Ásia Menor. O comando foi confiado ao aristocrata Lúcio Cornélio Sila; imediatamente, o tribuno Publico Supliciou Rufo fez votar uma lei atribuindo a Mário a chefia. Diante de tal oposição, Sila marchou sobre Roma;
Os optimates (patrícios e nobilitas) declararam Mário inimigo público, e ele se viu obrigado a fugir para escapar da morte. Sila fez aprovar algumas leis que reforçavam o partido aristocrático, mas, após a sua partida para a Ásia, Mário, auxiliado por Lúcio Cornélio Cina, organizou suas tropas e promoveu em Roma violenta perseguição aos optimates.
Em 86 a.C., logo depois de ter assumido pela sétima vez o consulado, Mário morreu.
O poder ficou com Cina, cuja primeira medida foi admitir os socii em todas as tribos eleitorais.
Mas, em 84 a.C., quando tentava organizar um grande exército para impedir que Sila, o vencedor de Mitridates, regressasse a Roma, Cina foi assassinado. Sila, que encontrou na Itália o apoio militar de dois grandes general – Marco Licínio Crasso e Cneu Pompeu –,
Anulou todas as medidas populares e restabeleceu o poder da nobreza. Impondo-se como ditador de 82 a 79 a.C., restringiu as atribuições das assembleias populares e dos tribunos da plebe. Em 79 a.C., com a abdicação de Sila, o cônsul Marco Emílio Lépido procurou implantar um programa de cunho popular. Opondo-se a isso, o Senado concedeu poderes extraordinários a Pompeu para frustrar os objectivos do novo cônsul.
Em 77 a.C. Pompeu esmagava, na Espanha, as forças de Quinto Sertório, seguidor de Mário, que lutava pela restauração do regime democrático.
Pompeu e Crasso
Entre 77 e 60 a.C. Pompeu e Crasso deram a Roma a segurança da invencibilidade do seu exército. Pompeu, conquistando territórios no Oriente:
O Ponto, a Síria, a Cilícia, a Armênia, a Capadócia, a Galícia, a Cólquida e a Palestina;
Crasso, esmagando, na Apúlia, em 71 a.C., a rebelião de 120 000 escravos liderados por Espártaco.
De retorno a Roma, em 70 a.C., Crasso e Pompeu estabeleceram uma súbita aliança com os populares e ganharam a eleição para o consulado. Isso significou a reintegração dos poderes das assembleias e dos tribunos da plebe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário