CRISTIANISMO
CAPITULO 34
NASCIMENTO VIRGINAL DE JESUS É UMA LENDA?
Por João Flávio Martinez,
Acreditar que o Jesus histórico realmente existiu não é mais problema para os historiadores de maneira geral, pois há várias provas comprobatórias nesse sentido.
Evidências filológicas, arqueológicas, paleográficas...
Enfim, negar a passagem de Jesus pela terra seria hoje como assinar um atestado de obtusidade histórica ou se declarar descontextualizado com as novas descobertas. Entretanto, alguns arvoram que, apesar da historicidade humana de Jesus, seus seguidores o mitificaram com muitas lendas sem estribo lógico, fazendo algumas questões parecerem truanices!
Nesta pequena minuta sobre este tema, nos deteremos em o quanto cooperou a “lenda” da concepção virginal de Cristo para a sua deificação.
Não quereremos provar com argumentos teológicos a concepção virginal de Jesus.
Afinal, isso é uma questão de fé. Nosso objetivo é mostrar que realmente os cristãos da época acreditavam nisso, não por causa de uma mitologia antecessora ao acontecimento cristológico, mas pelas evidências que muitos alegaram ter! Estrela de Prata na Igreja Católica de Natividade sugere ser ente o local onde Cristo nasceu A mitologia egípcia, babilônica e greco-romana e a questão da divindade de Jesus Bem, sabemos que culturas bem anteriores à judaica-cristã já acreditavam em teofanias.Vejamos alguns exemplos:
EGIPTO
O faraó egípcio retrata bem o que estamos falando. Os faraós centralizavam todo o poder em si mesmos e eram tidos como encarnação de Hórus, o grande deus, filho de Osíris (senhor dos mortos), e da deusa Ísis. Por conta de tal ostentação, os faraós conseguiram ter governabilidade extremamente teocrática e manter uma soberania durável, além de serem cultuados como divinos.
• MESOPOTÂMIA
As religiões mesopotâmicas abrangem as crenças e práticas religiosas que moldaram a cultura dos antigos sumérios e acadianos, e também de seus sucessores, os assírios e os babilônios, habitantes da Mesopotâmia até pouco antes da era cristã.
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Para eles, a escolha do rei, diferentemente da teofania egípcia, era uma eleição divina, ou seja, acreditavam que os reis mais valentes, perspicazes e vitoriosos deveriam ostentar o cetro real e governar por ordem dos deuses. Dos panteões dos deuses, podemos destacar dois principais: Marduk e Baal.
• ROMA ANTIGA
Segundo a lenda divulgada pelo grande escritor Vergílio, no ano 29 a.C., Rômulo e Remo foram os fundadores de Roma. A tradição conta que o usurpador Amúlio, após derrubar seu irmão Numitor do trono de Alba Longa, obrigou Réia Sílvia, filha de Numitor, a converter-se em virgem vestal (sacerdotisa de Vesta, deusa do fogo), para que não gerasse descendência do antigo rei.
Entretanto, a jovem Réia recebeu a visita do deus Marte, que lhe apareceu em forma de serpente. Da relação sexual de Réia com esta serpente Rômulo e Remo foram concebidos.
E, devido a esse sinal miraculoso, Roma fora fundada.
OS APÓSTOLOS OUSARIAM APELAR MITOLOGIA PAGÃ ?
A região da Mesopotâmia é o lugar em que encontramos maior similaridade com a cultura judaica, e vice-versa. Tanto é que os judeus também acreditavam em uma teocracia:
“Então Samuel tomou o chifre do azeite, e ungiu-o no meio de seus irmãos;
e desde aquele dia em diante o Espírito do SENHOR se apoderou de Davi; então Samuel se levantou, e voltou a Ramá” (1Sm 16.13).
Isso, no entanto, não significa que eles tinham afinidades religiosas com os mesopotâmicos.
Ao contrário, criou rivalidade entre eles. Prova disso é que essa problemática foi um dos vários motivos de guerras entre os judeus e os povos antigos da região (cf. os livros de Reis e Crônicas). Depois do cativeiro babilônico, os hebreus se fecharam ainda mais.
No período helênico, aproximadamente no século II a.C., o povo hebreu resistiu bravamente à helenização cultural impetrada por Antíoco Epifânio. Isso mostra a condição sociológica em que sempre se manteve o povo judaico — separado e antagônico em relação à mitologia pagã!
A contextualização sociológica da época de Cristo é extremamente relevante para entendermos se alguma mitologia havia-se infiltrado ou penetrado na cultura judaica.
O dr. R. L. Hoover explica o seguinte sobre a questão:
“O judaísmo, no primeiro século da era cristã, era uma religião baseada na revelação de Deus por meio das Escrituras, isto é, da Lei e dos Profetas. Os judeus enfatizavam o monoteísmo e não era permitido sequer louvar ou admitir a existência de qualquer outro deus”
O porquê de estarmos explicando tudo isso é para responder às considerações de alguns que argumentam negativamente a respeito da concepção virginal de Jesus.
Ou seja, para responder àqueles que acreditam que, se não existissem as lendas que antecederam o fato cristão, Jesus jamais teria sido aceito como o Messias que nascera de uma virgem. Bem, mas será que a teologia cristã precisaria de mais esse argumento para “mitificar” ou divinizar Jesus? Será que os apóstolos, sendo judeus, ousariam apelar para uma mitologia pagã?
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES RELEVANTES
1). O mais relevante para a aceitação messiânica de Jesus era se ele descendia da linhagem de Davi, pois todas as profecias assim arvoravam a respeito do Cristo: “Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo e, sendo rei, reinará e agirá sabiamente, e praticará o juízo e a justiça na terra.
Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este será o seu nome, com o qual Deus o chamará: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA” (Cf. Jr 23.5,6 e Mq 5.2). De propriedade dos gregos ortodoxos, a Gruta de Natividade fica em Belém a Lucas deixaram claro que José e Maria eram descendentes da tribo de Judá — tribo de Davi (Cf. Mt 1 e Lc 3.23-38).
2). A profecia de Isaías 7.14, em que afirma que a virgem conceberia, servia, para o momento cristológico, mais de embaraço para a exposição do evangelho do que para corroboração da missão messiânica de Cristo. Explicamos: a aplicação imediata desse vaticínio seria uma nubente que fora virgem até a ocasião do seu casamento. Antes de o seu filho ter idade suficiente para distinguir entre o certo e o errado, os reis da Síria e de Israel seriam destruídos (Is 7.16). Ou seja, o fato já havia ocorrido como sinal na época do próprio profeta. Elucidar aos judeus que tal profecia teve um duplo cumprimento foi muito difícil para os discípulos de Cristo.
Já que Mateus e Lucas haviam provado a messianidade de Jesus pela genealogia davídica, seria muito mais aproveitável para a causa se os discípulos tivessem obliquado uma polêmica dessa envergadura que, de maneira nenhuma, tiraria a ótica messiânica cristã.
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Além do mais, exige muita credibilidade da parte dos críticos e dos céticos acreditar que autores judaicos monoteístas como Mateus e Lucas poderiam empregar mitologia pagã em suas narrativas.
3). Os apóstolos e os discípulos cristãos eram etimologicamente judeus, e tinham uma educação religiosa judaica, o que tudo indica que a maneira de pensar era bem diferente da maneira greco-romana. Também, no princípio da pregação evangélica, os seguidores de Cristo acreditavam que Jesus deveria ser primeiro e, de maneira exclusivista, apregoado aos seus patrícios judeus. Só um tanto depois, mais precisamente após a experiência de Pedro junto à família gentílica de Cornélio é que esse paradigma foi alterado e o evangelho pregado a todos
4). A sede da Igreja ficou em Jerusalém até a sua destruição por Tito no ano 70 d.C. Isso, com certeza, protegeu a teologia cristã em seu alicerce contra o sincretismo religioso que vigorava no mundo romano. Enumeramos essas quatro ocorrências para mostrar que os discípulos não levariam vantagens em inventar um embuste como esse na propagação do evangelho, principalmente entre os judeus.
Jesus poderia ter sido pregado sem necessariamente expor seu nascimento virginal.
Seria falta de critério uma pregação com mitos greco-romanos dentro do contexto judaico oriental, a não ser que os apóstolos acreditassem mesmo que Jesus era nascido de uma virgem.
A Igreja Apostólica nunca teve dúvida sobre a questão de Jesus ter sido concebido por uma virgem. Os primeiros líderes da Igreja cristã, chamados de Pais da Igreja, corroboraram positivamente com os ensinos dos apóstolos. Em 110 A.D., Inácio escreveu:
“Pois nosso Deus Jesus Cristo [...] foi concebido no ventre de Maria [...] pelo Espírito Santo.
Pois a virgindade de Maria e Aquele que dela nasceu... são os mistérios mais comentados em todo o mundo” (grifo do autor). Inácio recebeu a informação de seu mestre, o apóstolo João.
Aristides, em 125 A.D., fala do nascimento virginal de Jesus: “Ele é o próprio Filho do Deus excelso que se manifestou pelo Espírito Santo, desceu dos céus e, nascido de uma virgem hebréia, se encarnou a partir da virgem” (grifo do autor).
Em 150 A.D., Justino ofereceu muitas provas a favor da idéia do nascimento milagroso do Senhor: “Nosso Mestre Jesus Cristo, que é o primogênito de Deus Pai, não nasceu como resultado de relações sexuais [...] O poder de Deus, descendo sobre a virgem, cobriu-a com sua sombra e fez com que, embora ainda virgem, concebesse...”3 (grifo do autor).
O primeiro grande cristão de fala latina foi o advogado convertido Tertuliano.
Ele nos informa que, em seus dias (ano 200 A.D.), existia não apenas um credo cristão estabelecido, sobre o qual todas as igrejas concordavam.
Ele cita esse credo quatro vezes, o qual inclui as palavras ex virgine Maria, que significa: “da Virgem Maria”, dando a entender claramente que Cristo nascera de uma mulher virgem.4
O historiador e erudito R. E. Brown ainda comenta:
“Paralelos não-judaicos têm sido encontrados nas religiões mundiais
(O nascimento de Buda, de Krishna e do filho de Zoroastro),
na mitologia greco-romana, nos nascimentos dos faraós (com o deus Amon-Rá agindo por intermédio de seu pai) e nos nascimentos sensacionais dos imperadores e filósofos (Augusto, Platão etc.). Mas esses ‘paralelos’ sempre envolvem um tipo de hieros gamos em que um macho divino, em forma humana ou em outra, insemina uma mulher, seja por meio do ato sexual normal, seja por meio de uma forma substituta de penetração.
Eles não são realmente semelhantes à concepção virginal não-sexual que está no âmago das narrativas da infância de Jesus, concepção esta em que nenhum elemento ou deidade macho insemina Maria [...] Portanto, nenhuma busca por paralelos nos tem dado explicação verdadeiramente satisfatória de como os primitivos cristãos chegaram à idéia de uma concepção virginal — a menos, é claro, que ela realmente tenha acontecido historicamente”
.5 . Independente de se acreditar no milagre do nascimento virginal de Cristo ou não, para nós, nesta exposição, é mais relevante mostrar que os primeiros cristãos só teriam motivos para falar desse nascimento misterioso caso eles realmente acreditassem nesse milagre.
Então, podemos afirmar que qualquer conjectura de uma ideologia pagã no seio primitivo da Igreja para elevar Cristo a divino seria falar de uma incongruência muito grande, seria desconhecer a cultura judaica e sua grande complexidade. O que realmente esperamos é que o leitor reflita e consiga fazer suas próprias conjecturas sobre o explicitado nestas sucintas linhas.
• Bibliografia CENTRO APOLOGÉTICO CRISTÃO DE PESQUISAS
A FAMILIA OCULTA DE JESUS
Textos rejeitados pela Igreja dizem que o avô de Cristo era um rico comerciante de gado, a avó era estéril e que Maria teve outros filhos
• ANTONIO GONÇALVES FILHO
O menino Jesus brinca com o primo João ao lado de Maria e Ana, mãe da Virgem A maioria dos fiéis não ousa imaginar a infância de Cristo como a de um menino mágico, capaz de fazer pássaros de barro voar, andar sobre raios de sol ou puxar amiguinhos para brincar através de frestas de janelas. Natural.
A Igreja sempre rejeitou textos como o Livro da Infância do Salvador, do qual foram extraídas essas histórias, e os evangelhos apócrifos, que contam em detalhes a vida do Messias.
Por conta disso, tudo o que se sabe sobre Jesus é o que está nos evangelhos canônicos.
Eles simplesmente ignoram seus avós, Ana - livre da esterilidade por intervenção divina
- e Joaquim, um milionário que sempre pagava em dobro suas oferendas a Deus.
Tampouco contam como Maria foi concebida ou se Jesus teve irmãos.
São essas as histórias que as editoras começam a revelar, numa profusão nunca vista de livros sobre Jesus e sua família. A mais recente obra sobre a vida familiar de Cristo é tão cheia de novidades que parece uma provocação. Tiago, Irmão de Jesus, lançado com certo atraso no Brasil pela editora Record, contesta o dogma da virgindade perpétua de Maria e assegura que essa não é afirmada em nenhuma passagem do Novo Testamento.
ANUNCIAÇÃO
Tiago, o Justo, conta que José tentou abdicar da tutela da Virgem antes do casamento
O autor, Pierre-Antoine Bernheim, apresenta Tiago, chamado o Justo, como irmão uterino de Cristo, morto 30 anos após sua crucificação. E vai além: sustenta que Tiago, martirizado, foi até mais influente que Pedro na Igreja primitiva, justamente pelo parentesco com o Messias.
Pedro e outros apóstolos defendiam a difusão da mensagem cristã para uma comunidade unificada de judeus e gentios. Tiago, não. Temia, segundo o estudioso Bernheim, que isso pudesse provocar um movimento de renovação dentro do judaísmo ou criar uma religião afastada de suas raízes.
Num texto apócrifo, Evangelho dos Hebreus, que a Igreja ignora, mas muitos estudiosos aceitam pelo valor histórico, o Cristo ressuscitado aparece pela primeira vez ao suposto irmão Tiago, o que estabelece sua preeminência sobre Pedro como autoridade suprema da Igreja.
São Jerônimo jamais aceitou que Tiago fosse irmão de Jesus.
Era seu primo, segundo o tradutor da Bíblia.
Tiago seria filho de uma irmã de Maria que tinha o mesmo nome, Maria de Cléofas.
A tradição católica admitiu sua teoria e acabou adotando-o como Tiago Menor, por oposição a Tiago Maior, filho de Zebedeu, ambos santos.
Intrigado com a implicância que os evangelistas tinham com os parentes de Jesus, o jornalista A.N. Wilson, autor de Jesus, um Retrato do Homem (Ediouro), faz outra afirmação chocante.
Diz que o primeiro casamento do carpinteiro José, antes de conhecer a mãe de Cristo, 'foi provavelmente inventado para satisfazer àqueles que, como os atuais católicos romanos, eram instigados a acreditar na virgindade perpétua de Maria'.
O jornalista recorre ao Evangelho de São Marcos para afirmar que Jesus fazia parte de uma grande família e teve quatro irmãos - Tiago, José, Simão e Judas - e duas irmãs.
E mais: lembra que praticamente todas as referências à família, tanto nos evangelhos canônicos como nos apócrifos, são de conflito. Os parentes de Jesus seriam briguentos.
Nesses textos, observa Wilson, Jesus surge como homem rude, que repreende a mãe, abandona o lar, renuncia à família e parte para pregar.
Apenas no sexto mês de gravidez José se deu conta de que a Virgem esperava o Messias,
O ex-jesuíta americano Jack Miles, autor do livro Cristo, uma Crise na Vida de Deus (Companhia das Letras), sustenta que esse comportamento por vezes áspero estava de acordo com o de um ser com poder divino, que não queria parecer excepcional com base nessa força.
O Filho do Homem, argumenta o escritor, simplesmente poderia ter decidido tornar-se humano sem começar sua existência no útero de uma mulher, dispensando a família.
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Mas, se Deus estava 'irrecuperavelmente envolvido' no processo humano com esse nascimento, por que não teria casado, experimentado sexo e constituído família?, questiona Miles.
Segundo o livro Mãe – A História de Maria, a ser lançado em maio pela Editora Mercuryo, uma parteira compartilhou a mesma dúvida sobre a castidade da mãe do bebê Jesus e ultrapassou os limites da decência em sua pesquisa.
Curiosa, a parteira Salomé queimou a mão ao tocar Maria com os dedos para atestar sua virgindade.
Responsável pela compilação do volume, a editora Júlia Bárány diz que adotou como fonte principal para contar essa e outras histórias o Proto-Evangelho de Tiago, um apócrifo do século II teoricamente escrito pelo discutido irmão de Jesus citado nas epístolas paulinas.
• GRAVIDEZ
Segundo Tiago, suposto irmão de Jesus, José teria desconfiado da gravidez de Maria
Equivocado, o carpinteiro conclui que ela traiu sua confiança. Levado a um tribunal por ter 'violado' a virgem que recebeu do Templo, ele protesta inocência ao sacerdote
O livro conta, entre outros episódios, como foi a concepção milagrosa de Maria pelas preces de sua mãe, Ana, a avó de Jesus. Inconformada por não poder ter filhos, Ana pediu a Deus que abençoasse seu ventre. Ele não só atendeu à súplica, como fez voltar seu velho marido, que, humilhado por ser justo e não gerar descendentes, foi para o deserto jejuar.
Como na história de sua filha Maria, um anjo desceu até ele e garantiu que ela seria bendita entre as mulheres. O Novo Testamento fala pouco da mãe de Jesus, mas o Proto-Evangelho de Tiago, esquecido pelo catolicismo, é rico em detalhes. Curiosamente, foi adotado por artistas que pintaram cenas da vida da Virgem por encomenda da própria Igreja.
É por intermédio de Tiago que conhecemos os pais de Maria, avós de Jesus, a estéril Ana e o milionário criador de rebanhos Joaquim, que receberam a graça prometida pelo anjo.
A Igreja não conseguiu eclipsar seus nomes. Apesar de ausentes no Novo Testamento, a tradição católica absorveu bem a história do Proto-Evangelho de Tiago.
Diz o texto que Joaquim não teve filhos durante 20 anos de casamento até o nascimento de Maria, menina prodígio que sabia dançar aos 3 anos e ficou grávida aos 16.
Criada por donzelas, foi recebida pelos sacerdotes do Templo por promessa dos pais.
Segundo o apócrifo Evangelho de Maria, em que a mãe de Jesus narra suas memórias a João Evangelista, seus pais sabiam que ela iria gerar o Messias. Do Templo, ela só sairia para casar com José, ao atingir a adolescência.
Antes mesmo da primeira menstruação - os religiosos daquele período acreditavam que o
sangue maculava o Templo -, a menina casou com o velho carpinteiro, de cujo cajado brotou uma flor - sinal de ter sido eleito pelo Senhor para tutelar a Virgem.
Apesar disso, José, que teria mais de 80 anos, relutou em aceitar uma jovem como esposa com medo de ser objeto de zombaria. No livro O Evangelho Secreto da Virgem Maria (Mercuryo), do padre católico espanhol Santiago Martín, a Virgem teria concebido o filho numa gruta (e não num estábulo), antes mesmo de seu casamento com José. O Proto-Evangelho de Tiago faz Jesus nascer nessa gruta, mas cria informações contraditórias, ao assumir o parto num lugar miserável, incompatível com alguém que era neto de um homem rico como Joaquim.
Outros historiadores defendem ter sido José um grande construtor, pertencente à alta classe da Palestina. As contradições não param por aí.
No evangelho apócrifo de Maria, a Virgem garante que Jesus era um menino 'lindíssimo', em nada parecido com aquele feioso e primitivo hominídeo paleolítico que os jornais andaram estampando como a 'descoberta científica' do século.
TRADIÇÃO
Passada a quarentena que a lei mosaica prescrevia para a purificação, o bebê Jesus foi apresentado por sua mãe Maria aos sacerdotes do Templo (conforme mostra a tela de Giovanni Bellini). Uma parteira teria queimado uma das mãos ao tocar o corpo de Maria para testar sua virgindade
No Evangelho Pseudo-Mateus, outro apócrifo, o menino Deus é retratado como um aluno impaciente, que desafia seu primeiro professor, Zaqueu, a explicar o que representam as letras alfa e ômega. De acordo com outro apócrifo, o paciente José teve de aturar o gênio difícil do filho até os 111 anos.
Morreu sem um dente estragado e enxergando muito bem. Jesus teria, então, 18 anos.
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Prometeu ao pai que seu corpo não entraria em decomposição, permanecendo intacto até o dia da primeira ressurreição. Jesus ficou mais 12 anos sem sair de Nazaré, herdando dele a carpintaria - ou a firma de construção, que teria, inclusive, trabalhado para o tirano Herodes Antipas, segundo alguns pesquisadores. Ficaram para trás as brincadeiras e sua turma, a única da cidade que não se divertia brincando de matar romanos.
A Igreja Católica consagrou a história de José carpinteiro, mas, em aramaico, a palavra naggar tanto pode significar artesão como erudito, lembra o jornalista A.N. Wilson.
Adulto, Jesus abandonou o anonimato e começou a pregar, seguindo a carreira do primo João Batista. As relações com a família nunca foram cordiais, revelam os apócrifos.
A mãe ficou aflita por Jesus ter se perdido na cidade aos 12 anos.
Ele não a consolou, mas repreendeu-a.
Mesmo Marcos, o evangelista do Novo Testamento, narra um episódio em que a mãe e os irmãos de Jesus tentam interromper uma pregação sua e este, irritado com quem o alertou da presença familiar, pergunta: 'Quem é minha mãe? E meus irmãos?' (Marcos 3, 31-35).
Bernheim, autor de Tiago, Irmão de Jesus, julga que a pergunta seca seria uma resposta à oposição familiar a seu comportamento subversivo, que colocava em risco os parentes. '
Designando os que estão sentados em volta dele como sua verdadeira família, ele indica claramente que sua família biológica não faz parte daqueles que cumprem a vontade de Deus', observa Bernheim. A rispidez é recíproca. A família chamou-o de louco.
No evangelho apócrifo de Maria, ela chega a desconfiar das visões do filho.
Nele, a mãe de Jesus conta que o primeiro contato de Cristo com a morte foi aos 6 anos, ao ver o avô Joaquim no sheol, o lugar dos mortos dos judeus.
Ao ser inquirido sobre como obteve essa informação sobre o mundo sobrenatural, Jesus teria respondido: 'De meu Pai'. Maria olhou fixamente o filho e perguntou mais uma vez:
'José lhe disse que seu avô está vivo? Falou da ressurreição dos mortos?'
Conclusivo, Jesus teria respondido: 'Não, não foi José'.
Tal informação só poderia, então, ter partido do próprio Deus.
PRODÍGIO
Tiago, o Justo, tido como irmão de Jesus por alguns estudiosos, conta em seu proto-evangelho a infância do menino, após discutir a Lei com eruditos no Templo, incidente narrado no Evangelho de Lucas Assim como existem dois pais, também existem dois Jesus para os historiadores. Um seria Cristo. Outro seria o judeu Yeshua, condenado à morte por desafiar os romanos e o Templo de Jerusalém em plena Páscoa.
O historiador Flávio Josefo escreveu sobre sua morte.
Ele também conta que o sumo sacerdote Anás convocou uma sessão do Sinédrio e obrigou Tiago, 'o irmão de Jesus, chamado o Cristo', a apresentar-se diante dele.
'Qualquer leitor sem preconceitos concluiria que Maria e José tiveram outros filhos', diz o autor do polêmico livro O Outro Jesus, Antonio Piñero, da Universidade Complutense de Madrid
Para o estudioso, Maria teve relações normais com José depois do nascimento prodigioso de Cristo. Ou seja, não criou os filhos do viúvo, mas teve os próprios depois de Jesus.
Só mesmo uma mãe cheia de filhos poderia ter perdido um deles numa peregrinação e só se dar conta quase um dia depois.
Primeiro refere-se ao episódio descrito no evangelho canônico de Lucas, quando Maria encontra finalmente o filho perdido de 12 anos, discutindo no Templo com eruditos e doutores da Lei.
E por que não pregando aos irmãos? 'Porque eles não acreditavam em Jesus e, em algum momento, tentaram mesmo boicotar sua carreira', responde o catedrático.
Não conseguiram. Numa sexta-feira, um cadáver foi sepultado por Nicodemos e José de Arimatéia. Na manhã do domingo, ressurgiu dentre os mortos. Era Jesus.
Não o histórico, mas o Deus encarnado. essa ressurreição que milhões de cristãos comemoram na Páscoa.
OS MITOS DE UM MARAVILHOSO NASCIMENTO
nascimento
Jesus não nasceu a 25 de Dezembro, não foi dado à luz numa gruta, não havia burro ou vaca a assistir, os magos não eram reis nem eram três, não houve pastores a adorá-lo, não fugiu para o Egipto. As histórias de Natal estão cheias de pormenores que têm apenas uma intencionalidade teológica. Apenas?
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Não fossem essas histórias e onde estaria a dimensão do maravilhoso no Natal?
Por António Marujo
“No cristianismo, o ponto de partida está na encarnação do Verbo.
Aqui, não é apenas o homem a procurar Deus, mas é Deus que vem em pessoa falar de si ao homem e mostrar-lhe o caminho por onde é possível atingi-lo.” (João Paulo II, Carta apostólica Tertio Millenio Adveniente, sobre o início do terceiro milénio)Nenhuma das histórias é verdade?
“A vinda dos magos do oriente, a acção da estrela, a conversa dos magos com Herodes, que ‘pôs em alvoroço a cidade de Jerusalém’, a adoração dos magos, o prazo de dois anos entre a vinda dos magos e a matança dos inocentes, a ida de Jesus, Maria e José para o exílio no Egipto, onde permanecem dois anos, é uma narrativa midráchica, artificial.”
O padre Joaquim Carreira das Neves, biblista, sintetizava deste modo, a 6 de Outubro deste ano, na sua última lição pública, o modo como a exegese bíblica contemporânea olha para as narrativas da infância de Jesus contidas nos evangelhos.
Midráchica designa uma narrativa maravilhosa para referir um facto de fé.
Nessa intervenção, que será em breve publicada na revista Didaskalia, da Universidade Católica, Carreira das Neves acrescentava: “É anti-racional que Herodes tenha mandado matar as crianças de Belém e arredores, precisamente dois anos depois do aparecimento dos magos.
A ser verdade, e não obstante os crimes do rei, Flávio Josefo [historiador do século I, autor de Antiguidades Judaicas] não deixaria de apresentar este crime como o maior de todos os crimes.”
Não há que enganar: as narrativas da infância de Jesus — apenas contidas nos Evangelhos de Mateus e Lucas, e mesmo assim com elementos contraditórios entre ambas — Porque surgiram então tais relatos?Muitos dos mitos ligados ao Natal devem-se às histórias dos evangelhos apócrifos (reunidos na Biblioteca de Nag Hammadi, que acaba de ser editada em Portugal pela Esquilo). Esses textos, dos séculos III e IV, que ajudam a entender o gnosticismo cristão daquela época, retratam um Jesus que faz milagres desde bebé, que se zanga facilmente ou, pelo contrário, é capaz de ajudar intensa e miraculosamente — fazendo brotar água, por exemplo.
Uma espécie de um ser humano que se quer mais divino que o divino.
Os dois evangelistas da infância — Mateus e Lucas — traduzem a mentalidade cristã do final do primeiro século, como explica ainda Charles Perrot (Narrativas da Infância de Jesus, ed. Difusora Bíblica). Mas o seu maravilhoso, escreve France Queré (Os Evangelhos Apócrifos, ed. Estampa), tem a intenção de mostrar que o nascimento de Jesus dá “um corpo sensível à devoção, começa-se a amar a Deus como a uma pessoa”.
O cristianismo insere-se na história, porque Deus se tornou humano.
E Jesus, o Deus que se torna homem, é o libertador para os tempos novos, um novo Moisés.
• A SAGRADA FAMILIA
• Mateus 1, 18s., Lucas 1, 26-39; 2, 41-51
É sob a designação de Sagrada Família que a família composta por Jesus, Maria e José é proposta como modelo pela liturgia a seguir ao Natal, bem como pela espiritualidade familiar.
Não haverá nisso algo de surpreendente, pois que se passa exactamente nessa família?
Os laços familiares que os unem não são nada simples. Maria é a mãe de Jesus, disso não há dúvida, mas as circunstâncias nas quais o concebeu permanecem misteriosas.
É um anjo, Gabriel, isto é, alguém entendido como mensageiro de Deus, quem anuncia a Maria esse futuro nascimento. Será ele o vector daquilo que designa pudicamente como sombra do Espírito Santo, pois que, à pergunta de Maria, "Como será isso possível, visto eu ser virgem?",
responde, cheio de confiança, "O Espírito Santo cobrir-te-á com a sua sombra."?
Encontramos anunciações feitas por anjos a Sara, esposa de Abraão e mãe de Isaac, e a Isabel, prima de Maria e mãe de João Baptista. Essas duas mulheres são estéreis e passaram já da idade de ter filhos. Também se encontram nascimentos virginais noutras mitologias.
Nesses diversos casos, trata-se de um processo literário que significa que a criança assim nascida será um ser excepcional. Que se terá passado exactamente? Não o sabemos.
Maria será a mãe portadora de uma criança de origem não determinada, ou uma mãe solteira a quem José salva da desonra? Com efeito, José está prestes a repudiar secretamente Maria, a quem o unem laços de noivado, pois ela encontra-se grávida sem que tenham vivido juntos.
Não parece ser o pai biológico de Jesus. No entanto, é através dele que passam os elos de descendência, que fazem de Jesus membro da família de David.
A adopção de Jesus por José parece, pois, um acto de grande força.
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Os seus contemporâneos chamam-lhe simplesmente "filho de José". Maria não é excluída desse tipo de filiação, visto que José, na genealogia da ascendência de Jesus dada por Mateus (1, 1 s.), é apresentado como "esposo de Maria". Isso é notável, numa cultura onde é geralmente a mulher quem é identificada pelo nome do marido.
A criança foi informada ou tem a intuição das suas origens misteriosas?
Na adolescência, terá partido em busca do seu verdadeiro pai?
Será essa a causa da sua fuga aquando da peregrinação a Jerusalém?
Ao fazê-lo, ao sabor dessa busca, Jesus pode também ter descoberto uma outra filiação, aquela que o une à transcendência a quem chama seu Pai. Mas os seus pais não o compreendem, quando lhes diz que tem de "estar nas coisas do seu Pai".
Depois desse episódio, fica em casa, inicia-se na profissão de José e exerce-a até aos 30 anos.
• Os evangelhos nada nos dizem sobre as relações entre José e Maria.
Pode supor-se que tenham sido felizes. Pode igualmente supor-se que tiveram outros filhos, pois os evangelhos falam dos irmãos e irmãs de Jesus.
Quando Maria põe Jesus no mundo, Lucas chama-lhe "filho primogénito".
Tem-se traduzido essa expressão como "filho único", mas também pode sê-lo por "filho mais velho". Qualquer que seja o caso, nos seus poucos anos de vida pública Jesus não valorizou os laços de sangue: "Quem são minha mãe e meus irmãos?
Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe." (Mc 3, 33-35) e "Quem ama o seu pai, a sua mãe, o seu filho, a sua filha, (a sua mulher, em Lucas), mais do que a mim não é digno de mim." (Mt 10, 37) Isto será uma relativização dos laços familiares, ou antes uma abertura desses laços a outras relações?
Não se tratará de um afastamento de um conceito fechado de família, de forma a permitir aos seus membros, à sua mãe, aos seus eventuais irmãos e irmãs, abrirem-se a novos relacionamentos e a novas vocações? Que se pode deduzir de uma tal leitura da "sagrada família"?
Que não há apenas um único modelo familiar, que uma concepção fora do casamento não é necessariamente um acto reprovável, que no ser humano a adopção faz sair dos limites exclusivamente biológicos, que não são o único elo possível entre pais e filhos, que, das diferentes formas de família, podem nascer crianças equilibradas, que a fuga de uma criança permanece incompreensível e fonte de angústia para os pais, mas constitui, por vezes, uma etapa essencial para essa criança, ou ainda que a família nuclear, fechada sobre si mesma, não favorece o desenvolvimento dos seus membros. Aí estão, senão santificados, pelo menos reconhecidos todos os modelos familiares fora da norma.
Pensemos nas famílias monoparentais, adoptivas, recompostas, com crianças de leitos diferentes ou ainda fundadas sobre uma concepção clinicamente assistida.
Mais uma vez, os evangelhos surgem a pôr em causa os modelos sociais "prontos a usar". Jesus ergueu-se contra todos os laços susceptíveis de entravar a liberdade do ser humano:
os laços familiares, como neste caso, mas também os laços sociais ou religiosos.
sábado, 7 de novembro de 2009
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